sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Eterno En Mí









Huida inesperada

De los brazos de nadie
Solo… por la vías tristes

Momentos vividos contigo
Inmortalizados en mi alma.

Carne de mi carne
Sangre de mi estirpe
Agua de mis mares

La noche no te detuvo ante el futuro que te arrebató de mí.
Inexperto amigo
Precoz en el tiempo
Eterno en mí.

El verdor de tus ojos
Está tatuado en mi destino
Estás en mi más vivo que yo mismo


Cuando hablo, es tu voz
La desahoga este llanto
Cuando río es tu alegría que me brota

En tu tumba se fueron
Los secretos de la amistad,
Tu agonía no me esperó.
Ahora sé que el corazón
También se cansa de esperar
El cariño que siempre se deseó.
Agua de mis mares
Eterno en mí…

Que muerte tan anunciada
Que mañana tan sabia.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A FONTE DE SANGUE



















Tenho a impressão de que meu sangue em onda escorre, Rítmico soluçar de nascente que morre.
Ouço-o bem a escorrer num murmúrio de vaga,
Mas eu tateio em vão à procura da chaga.

Através da cidade, e pelas estacadas,
Faz as ilhas nascer por todas as calçadas,
Desalterando a sede a cada criatura
O seu fluxo que sempre o universo púrpura.

Muitas vezes pedi a vinhos de prazer
Adormecerem só um dia o horror que mina;
O vinho aguça o olhar e torna a audição fina!

Eu procurei no amor um sono de esquecer;
E é-me somente o amor um colchão de punhais
Em que eu dou de beber às amadas fatais!

- Ponho esse poema, um dos meus preferido de Charles Baudelaire-




sábado, 26 de julho de 2008

Bathory - Ring of Gold

  1. Prefácio
  2. Mitologia Nórdica diz respeito aos povos que habitaram, nos tempos pré-cristãos, os atuais países escandinavos (Noruega, Suécia e Dinamarca), além da gélida Islândia. Este conjunto de mitos também teve especial desenvolvimento na Alemanha, que foi a grande divulgadora da riquíssima cultura dos nórdicos. Com a expansão das navegações vikings, esta difusão acentuou-se ainda mais, indo alcançar também os povos de língua inglesa e deixando sua marca até na própria denominação dos dias da semana destes países (Thursday, por exemplo, é o "dia de Thor"; e Friday, "dia de Freya").
  3. No século XIII (cerca de trezentos anos após a conversão da Islândia ao cristianismo), o islandês Snorri Sturluson (1179 - 1241) codificou grande parte destes mitos no livro Edda em Prosa. Nesta obra, o poeta e historiador islandês registrou algumas das principais lendas relativas aos deuses e heróis dos tempos pagãos que recolheu em suas andanças por todo o país. Acrescentou também um extenso tratado de arte poética, onde ensinava a métrica e o elaborado sistema de metáforas dos escaldos (poetas que difundiam, oralmente, as antigas lendas).
  4. Apesar de algumas destas histórias serem trágicas (como, por exemplo, a história de Sigurd e Brunhilde), a maioria delas, ao contrário, tem uma veia cômica bastante pronunciada, especialmente, aquelas nas quais os deuses são os protagonistas. Jamais saberemos, no entanto, até que ponto a versão original destas histórias tinha mesmo esta conotação ou até onde houve a intenção (deliberada, ou não) do cristão Sturluson de tentar ridicularizar os antigos deuses do paganismo. De qualquer forma, são justamente estas as histórias mais interessantes e representativas da riquíssima mitologia nórdica. Nelas, Odin (ou Wotan) e sua irrequieta trupe estão sempre envolvidos em jogos de enganação com os gigantes, seus eternos inimigos, destacando-se, invariavelmente, o astuto - e quase sempre perverso - Loki, o enganador por excelência (Loki representa nesta mitologia um papel análogo ao da velha serpente dos cristãos, que se compraz em tramar nas sombras a destruição dos deuses). De modo geral, Odin e seus comparsas saem-se melhor nestas divertidas - e quase sempre violentas - disputas, embora, às vezes, também façam o papel de bobos, como na desastrada visita que Thor fez a Jotunheim, a terra dos Gigantes.
  5. Fonte de inspiração para as mais variadas áreas, a riquíssima mitologia nórdica inspirou a criação de muitas obras, como a do escritor inglês J. R. R. Tolkien, que foi colher na mitologia escandinava o fundamento básico de seu fantástico universo literário. O argentino Jorge Luis Borges também não escapou a essa influência, dedicando várias de suas páginas às brilhantes metáforas ("kenningar") que encontrou na poesia islandesa.
  6. Outro grande artista que se inspirou nas lendas vikings foi o compositor alemão Richard Wagner, que as utilizou largamente para compor a sua famosa tetralogia operística "O Anel dos Nibelungos", que apresentamos sob a forma romanceada de uma pequena novela, na segunda parte deste volume. O leitor haverá de notar que, embora os personagens continuem praticamente os mesmos, há, porém, algumas alterações nas suas denominações (Odin, por exemplo, na transposição de uma mitologia para a outra, passa a se chamar Wotan), além de ligeiras modificações em seus atributos. Entretanto, o leitor, que a esta altura já estará familiarizado com o universo mítico dos nórdicos, não encontrará dificuldade alguma em situar-se na trama, que gira em torno da luta impiedosa pela posse de um anel maléfico (onde já vimos isto antes?) e das conseqüências que a ambição desmedida acarreta ao ser humano - e, por fim, ao próprio universo.
  7. Com a inclusão desta obra fundamental da cultura alemã, cremos haver reunido num único volume as principais lendas relativas à riquíssima mitologia dos povos do norte da Europa, servindo de introdução a todos aqueles que apreciam estes verdadeiros devaneios poéticos das raças que são as mitologias de todos os povos.
  • A Criação
    1. Primeiro, havia o Caos, que era o Nada do Mundo, e isto era tudo quanto nele havia. Nem Céu, nem Mar, nem Terra - nada disto havia. Apenas três reinos coexistiam: o Ginnungagap (o Grande Vazio), abismo primitivo e vazio, situado entre Musspell (o Reino do Fogo) e Niflheim (a Terra da Neblina), terra da escuridão e das névoas geladas. Durante muitas eras, assim foi, até que as névoas começaram a subir lentamente das profundezas do Niflheim e formaram no medonho abismo de Ginnungagap um gigantesco bloco de gelo.
    2. Das alturas abominavelmente tórridas do Musspell, desceu um ar quente e este encontro do calor que descia com o frio que subia de Niflheim começou a provocar o derretimento do imenso bloco de gelo. Após mais alguns milhares de eras - pois que o tempo, então, não se media pelos brevíssimos anos de nossos afobados calendários - o gelo foi derretendo e pingando e deixando entrever, sob a outrora gelada e espessa capa branca, a forma de um gigante.
    3. Ymir era o seu nome - e por ser uma criatura primitiva, dotada apenas de instintos, o maniqueísmo batizou-a logo de má. Ymir dormiu durante todas estas eras, enquanto o gelo que o recobria ia derretendo mansamente, gota à gota, até que, sob o efeito do calor escaldante de Musspell, que não cessava jamais de descer das alturas, eis que ele começou a suar. O suor que lhe escorria copiosamente do corpo uniu-se, assim, à água do gelo, que brotava de seus poderosos membros - e este suor vivificante deu origem aos primeiros seres vivos. Debaixo de seu braço surgiu um casal de gigantes e da união de suas pernas veio ao mundo outro ser da mesma espécie, chamado Thrudgelmir. Estes três gigantes foram as primeiras criaturas, que surgiram de Ymir; mais tarde, Thrudgelmir geraria Bergelmir, que daria origem à toda a descendência dos gigantes.
  • Entretanto, do gelo derretido também surgira, além das monstruosidades já citadas, uma prosaica vaca de nome Audhumla, de cujas tetas prodigiosas manavam quatro rios, que alimentavam o gigante Ymir. Audhumla nutria-se do gelo salgado, que lambia continuamente da superfície, e, deste gelo, surgiu ao primeiro dia o cabelo de um ser; no segundo, a sua cabeça; e, finalmente, no terceiro, o corpo inteiro. Esta criatura egressa do gelo chamou-se Buri e foi a progenitora dos deuses. Seu primeiro filho chamou-se Bor, e, desde que pai e filho se reconheceram, começaram a combater os gigantes, que nutriam por eles um ódio e um ciúme incontroláveis.
  • Esta foi a primeira guerra de que o universo teve notícia e incontáveis eras sucederam-se sem que ninguém adquirisse a supremacia. Finalmente, Borgiganta Bestla e, desta união, surgiram três notáveis deuses: Wotan (também chamado Odin), Vili e Ve. Dos três, o mais importante é Wotan, que um dia chegará a ser o maior de todos os deuses. E, porque assim será, um dia, ele próprio disse a seus irmãos: casou-se com a
  • - Unamo-nos a Bor e destruamos Ymir, o perverso pai dos gigantes!
  • Os quatro juntos derrotaram, então, o poderoso gigante, e com sua morte, acabou também a quase totalidade dos demais de sua espécie, afogada no sangue de Ymir. Um casal, entretanto, escapou do massacre: Bergelmir e sua companheira, que construíram um barco feito de um tronco escavado e foram se refugiar em Jotunheim, a terra dos Gigantes, onde geraram muitos outros. Desde então, a inimizade estabeleceu-se, definitivamente, entre deuses e gigantes, cada qual vivendo livremente em seu território, mas sempre alerta contra o inimigo.
  • Dos restos do cadáver do gigantesco Ymir, Wotan e seus irmãos moldaram a Midgard (Terra-Média): de sua carne, foi feita a terra; enquanto que, de seus ossos e seus dentes, fizeram-se as pedras e as montanhas. O sangue abundante de Ymir correu por toda a terra e deu origem ao grande rio que cerca o universo.
  • - Ponhamos, agora, a caveira de Ymir no céu - disse Wotan a seus irmãos, após haverem completado a primeira tarefa.
  • Wotan fez com que quatro anões mantivessem a caveira suspensa nos céus, cada qual colocado num dos pontos cardeais. Em seguida, das faíscas do fogo de Musspell, brotaram o sol, a lua e as estrelas; enquanto que, do cérebro do gigante, foram engendradas as nuvens, que recobrem todo o céu.
  • Entretanto, após terem remexido a carne do gigante, com a qual moldaram a terra, os três deuses descobriram nela um grande ninho de vermes. Wotan, penalizado destas criaturas, decidiu dar-lhes, então, uma outra morada, que não, o Midgard. Os seres subumanos, que pareciam um pouco mais turbulentos que os outros, foram chamados de Anões e receberam como morada as profundezas sombrias da terra (Svartalfheim). Os demais, que pareciam ter um modo mais nobre de proceder, foram chamados de Elfos e receberam como morada as regiões amenas do Alfheim.
  • Completada a criação de Midgard, caminhavam, um dia, Wotan e seus irmãos sobre a terra para ver se tudo estava perfeito, quando encontraram dois grandes pedaços de troncos caídos ao solo, próximos ao oceano. Wotanidéia: esteve observando-os longo tempo, até que, afinal, teve outra grande
  • - Irmãos, façamos de um destes troncos um homem e do outro, uma mulher! E assim se fez: ele foi chamado de Ask (Freixo) e ela, de Embla (Olmo). Wotan lhes deu a vida e o alento; Vili, a inteligência e os sentimentos; e Ve, os sentidos da visão e da audição. Este foi o primeiro casal, que andou sobre a terra e originou todas as raças humanas que habitariam por sucessivas eras a Terra-Média. Depois que Midgard e os homens estavam feitos, Wotan decidiu que era preciso que os deuses tivessem também uma morada exclusiva para si:
  • - Façamos Asgard e que lá seja o lar dos deuses! - exclamou ele, que, como se vê, era um deus de energia e vontade inesgotáveis.
  • Este reino estava situado acima da elevada planície de Idawold, que flutuava muito acima da terra, impedindo que os mortais o observassem. Além disso, um rio cujas águas nunca congelavam - o Iffing - separava a planície do restante do universo. Mas, Wotan, sábio e poderoso como era, entendeu que não seria bom se jamais existisse um elo de ligação entre deuses e mortais. Por isso, determinou que fosse construída a ponte Bifrost (a ponte do Arco-íris), feita da água, do logo e do mar. Heimdall, um estranho deus nascido ao mesmo tempo de nove gigantas, ficaria encarregado, desde então, de vigiá-la noite e dia para que os mortais não a atravessassem livremente no rumo de Asgard. Para isso, ele portava unia grande trompa, que fazia soar todas as vezes que os deuses cruzavam a ponte.
  • A morada dos deuses possuía várias residências, as quais foram sendo ocupadas pelos deuses à medida que iam surgindo. O palácio de Wotan, o mais importante de todos, era chamado de Gladsheim. Ali, o deus supremo linha instalado o seu trono mágico, Hlidskialf, de onde podia observar tudo o que se passava nos Nove Mundos e receber de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Muniu (Memória), as informações trazidas das mais remotas regiões do universo.
  • Entretanto, se na mais alta das regiões estava situado o paraíso daquele soberbo universo, nas profundezas da terra, muito abaixo de Midgard, estava o Niflheim, o horrível e gelado reino dos mortos. Lá pontificava a sinistra deusa ú, filha de Loki, que se regozija Com a fome, a velhice e a doença, e que tem i lado a serpente Nidhogg. Esta se alimenta dos cadáveres dos mortos e se dedica a roer continuamente uma das raízes da grande árvore Yggdrasil, um freixo gigantesco que se eleva por cima do mundo e deita suas raízes nos diversos reinos, entre os quais, o próprio Asgard. Ao alto da copa frondosa desta imensa árvore, sobrevoa uma gigantesca águia, que vive em guerra aberta contra a serpente Nidhogg. Um pequeno esquilo - Ratatosk -, que passa a vida a correr desde o alto da Árvore da Vida até as profundezas onde está a terrível serpente, é o leva-traz dos insultos que estas duas criaturas se comprazem em trocar sem jamais esgotar seu infinito estoque de injúrias.
  • Nesta árvore fundamental, diz a lenda que o próprio Wotan esteve pendurado durante nove longas noites, com uma lança atravessada ao peito, para que pudesse aprender o significado oculto das Runas, o alfabeto nórdico, que rege e governa a vida dos deuses e dos homens. Quando seu martírio terminou, Wotan havia se tornado, definitivamente, o mais poderoso e sábio dos deuses, tendo o poder de curar doenças e de derrotar os inimigos com sua poderosa lança, Gungnir - ao mesmo tempo, sua mais poderosa arma e local de registro de todos os seus acordos.
  • Yggdrasil é o centro do mundo, e, enquanto suas raízes continuarem a suportar o peso de seu prodigioso tronco e de seus ramos infinitos, o mundo estará firme e a vida será soberana, sob os auspícios de Wotan, senhor dos deuses.


  • Loki e o construtor do muro
  • Durante muitos anos, os deuses viveram junto com os mortais até que, um dia, Odin, o maior dos deuses, teve a idéia de construir Asgard, a sua morada celestial. Era preciso que os deuses tivessem um local só para si, resguardado dos ataques dos seus terríveis inimigos, os Gigantes. Nem bem, porém, haviam terminado de construir a cidade, depararam-se todos com um grande problema: é que, na pressa, esqueceram de construir também uma sólida muralha para se proteger de um eventual ataque de seus pérfidos inimigos. Odin e Loki estavam conversando sobre o assunto, tendo ao lado outros deuses, como Tyr e Heimdall, quando, de repente, viram passar perto um cavaleiro.
  • - Uma bela construção a que fizeram...! - disse ele, admirando a arquitetura da divina cidade. - Mas, onde está o muro que deveria protegê-lo?
  • Os deuses, constrangidos, foram obrigados a confessar que haviam esquecido desta parte.
  • - Ora, mas isto não é problema! - disse o forasteiro. - Sou o mais hábil construtor do mundo e posso erguer um belo e fortificado muro, se assim desejarem.
  • Um sorriso de satisfação iluminou a barba ruiva de Odin. Loki, também satisfeito, acenou para o homem e lhe disse:
  • - E quanto tempo levará para terminá-lo?
  • - Em um ano e meio estará perfeito e acabado.
  • - Muito bem, pode começá-lo imediatamente! - disse Loki, aplaudindo o construtor.
  • - Esperem! - bradou Odin, interrompendo tudo. - O senhor disse que é o melhor construtor de todo o mundo, não é?
  • - Sim, honro-me de sê-lo!
  • - E, o que pede para realizar a sua tarefa? - quis saber o deus supremo, já imaginando que o hábil construtor não pediria pouco.
  • - Quero a mão da bela Idun em casamento - disse o outro, confirmando as mais negras previsões do maior dos deuses.
  • Idun era a deusa da juventude e cuidava do pomar onde brotavam as maçãs a juventude, graças às quais os deuses permaneciam sempre jovens e saudáveis.
  • - Ora, desapareça daqui! - disse Tyr, o mais valente dos deuses, brandindo o seu único punho para o atrevido.
  • Heimdall, o guardião da ponte Bifrost, que conduzia a Asgard, como não podia falar, protestou tocando sua cometa tão alto no ouvido do estrangeiro, que construtor sofreu um sobressalto e precisou de alguns minutos para recuperar inteiramente a audição. Quanto aos demais deuses, já iam todos dando as costas, incluindo Odin, quando ouviram Loki dizer ao atrevido forasteiro:
  • - Muito bem, se puder construir em seis meses, o negócio está fechado! Todos os rostos voltaram-se, alarmados, para o imprevidente deus.
  • - Imporemos apenas a condição de que realize sozinho a sua tarefa e no espaço de um único inverno - disse ainda Loki, sem se importar com as censuras que faiscavam no olhar de seus colegas. Para estes, entretanto, disse à boca pequena: - Não se preocupem: em seis meses, ele não terá construído nem a metade do muro, o que o obrigará a nos entregá-lo de graça!
  • - Trato feito! - disse o construtor, que pareceu muito satisfeito com a proposta. No mesmo instante, desceu de seu cavalo Svadilfair e meteu mãos à obra. Acoplando um trenó à cauda do cavalo, ele começou a empilhar e a arrastar enormes pedregulhos pela neve com tanta vontade e determinação, que todos os deuses empalideceram, menos Loki, que olhava para o homem com um sorriso irônico.
  • - Não se aflija, bela Idun! - disse ele à infeliz deusa, que vertia pelos olhos pequeninas lágrimas douradas. - São fanfarronices do primeiro dia; amanhã, ele á estará exausto e jamais conseguirá terminar o muro dentro do prazo estipulado!
  • Mas, no segundo dia, o ritmo não diminuiu; na verdade, aumentou e, ao fim do primeiro mês, o estrangeiro já havia construído um bom pedaço, grande o bastante para deixar em pé os cabelos de Odin.
  • - Loki, seu idiota...! - disse ele, chamando o responsável pelo iminente desastre. - Se a coisa for neste passo, antes mesmo dos seis meses, ele terá concluído o maldito muro e perderemos Idun e as maçãs da juventude! Não lhe passou pela cabeça, cretino, que este construtor pode ser um gigante disfarçado a tramar a nossa destruição? - indagou Odin a Loki, que cocava a cabeça, com um ar culpado.
  • Idun, por sua vez, observava noite e dia, com desolação, a movimentação do construtor e cada pedra que ele depositava a mais sobre o muro, era um golpe cavo que soava em seu peito. Seus olhos estavam sempre postos sobre as costas suadas do infatigável construtor e de seu portentoso cavalo que arrastava no trenó, sem um minuto de descanso, os grandes pedregulhos.
  • O tempo passou e faltavam agora somente cinco dias para a chegada do verão e um pequeno trecho para que o muro estivesse concluído.
  • Odin fez um sinal para que Heimdall fizesse soar a sua trompa, convocando os deuses para uma reunião de emergência.
  • - E agora, seu tratante? - disse Odin, tão logo avistou Loki adentrar o salão. - Já que foi esperto o bastante para nos meter nesta enrascada, trate de arrumar um jeito de nos tirar dela, caso contrário, você irá para o sombrio Niflheim, onde sofrerá torturas tão cruéis que nem mesmo sua filha Hei o reconhecerá!
  • - Verei o que posso fazer, poderoso Odin - disse Loki, o qual, se era imprevidente a ponto de se meter a todo instante em enrascadas, não era menos hábil em se safar destas mesmas situações.
  • Loki internou-se numa grande floresta e, naquela mesma noite, enquanto o construtor trabalhava com a ajuda de seu cavalo, ele retornou de lá transformado numa belíssima égua branca. Postando-se diante do cavalo do construtor, a égua começou a relinchar melodiosamente (tanto quanto um eqüino possa ter alguma melodia), o que fez com que Svadilfair arrebentasse, afinal, os freios que o mantinham preso ao trenó e seguisse a égua floresta adentro.
  • - Ei, espere, aonde vai? - gritou o construtor, espantado.
  • O cavalo, entretanto, lançara-se numa corrida tão desenfreada que, por mais que seu dono tentasse alcançá-lo, não pôde fazê-lo. Depois de descansar um pouco e refletir, porém, o construtor farejou naquilo o dedo de Loki.
  • - É claro! - exclamou furioso. - Tão certo quanto sou um gigante disfarçado de construtor, esta égua não passa do maldito Loki disfarçado!
  • O gigante, então, vendo que não conseguiria terminar o muro sem o auxílio de seu prodigioso cavalo, resolveu reassumir a sua forma natural para tentar completar a tarefa.
  • Odin, contudo, que a tudo assistia de seu trono, exclamou tomado pela ira:
  • - Tal como eu imaginava: o tal construtor não passa, na verdade, de um maldito gigante!... Ótimo, pois com isto fico também desobrigado de meu juramento! - Odin suspendeu no ar a mão que alimentava seus dois lobos, Geri e Freki, e ordenou, imediatamente, que um servidor fosse chamar seu filho Thor.
  • - Thor, preciso que, mais uma vez, faça uso de seu martelo Miollnir para derrotar este gigante impostor! - disse Odin, depositando todas as esperanças em seu valente filho.
  • Thor não esperou segunda ordem: empunhando seu martelo e afivelando bem à cintura o seu cinto de força, foi até o gigante, que empilhava, freneticamente, imensos pedregulhos no afã de terminar logo a sua tarefa. O rio de suor, que lhe escorria dos membros, fizera com que a neve ao seu redor tivesse derretido toda.
  • - Ora, vejam...! - disse Thor, ao se aproximar dele. - O pequeno construtor virou, então, de uma hora para a outra, um gigante atarefado?
  • - Fique longe de mim! - disse o outro, carregando em desespero a última pedra que faltava para completar o muro.
  • Porém, antes que tivesse tempo de colocá-la sobre o último vão do muro, Thor arremessou seu martelo com tal força e velocidade, que a cabeça do gigante se esmigalhou inteira.
  • - Aí está, patife, o seu pagamento! - disse o deus, recolhendo Miollnir. O gigante teve, logo em seguida, o restante de seu corpo jogado nos gelos eternos de Niflheim.
  • - E então, tudo correu bem? - disse Odin ao filho, tendo ao lado Idun.
  • - Já deve estar construindo seus muros na terrível morada de Hei! - disse Thor, enquanto retirava sua pesada luva de ferro.
  • Todos os deuses regozijaram-se com uma grande festa, aliviados que estavam pela derrota do gigante. Entretanto, em meio a ela, alguém perguntou:
  • - E Loki? Que fim levou o espertalhão?
  • De fato, Loki havia desaparecido de Asgard desde o instante em que entrara na floresta com o garanhão do gigante. Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele até que, um belo dia, ressurgiu, trazendo um belíssimo e prodigioso cavalo negro de oito patas.
  • - Ora, viva! Finalmente, reapareceu! - exclamou Odin, que, no entanto, parecia mais interessado no cavalo do que no deus desaparecido.
  • - Apresento a vocês Sleipnir, o cavalo mais veloz do universo! - disse Loki, todo sorridente.
  • Loki, por mais incrível que possa parecer, tornara-se pai de um cavalo; mas, para quem já havia sido anteriormente pai de um lobo e de uma serpente, não havia nisto nada de surpreendente. Entretanto, percebendo que Odin apaixonara-se, perdidamente, pelo cavalo, tratou logo de lhe dar o animal de presente na esperança de fazer com que esquecesse, rapidamente, de suas trapalhadas.
  • E foi assim que Odin se tornou dono do cavalo mais veloz do universo.

  • Thor e seu criado Thialfi
  • Thor, o deus do trovão, tinha um fiel servidor chamado Thialfi. Eles se conheceram da seguinte maneira: Thor e o astucioso Loki haviam decidido ir até a Terra dos Gigantes (Jotunheim) para que Thor desafiasse aqueles arrogantes seres a uma disputa de força, bem ao gosto da época. Após um dia de cansativa viagem, entretanto, resolveram fazer pouso numa casa muito pobre - pois era a única que avistaram nas proximidades. Thor desceu sua carruagem puxada por dois vigorosos bodes e junto com Loki pediu alojamento por aquela noite. Estavam já sentados à mesa para matar a fome de um dia inteiro de caminhadas, quando Thor percebeu que aquela frugalíssima refeição não seria nem de longe o suficiente para saciar o seu monstruoso apetite.
  • - Só isto: duas nozes e um pedaço rançoso de queijo? - disse Thor, com o semblante irado, ao dono da casa e à sua mirrada esposa.
  • - É o que a pobreza nos permite, poderoso deus...! - disse o humilde anfitrião. Mas, neste momento, ele escutou o balir de suas duas cabras, que estavam lá fora, no pequeno redil.
  • - Garoto, vá até lá e traga já os dois animais! - disse Thor a Thialfi, que era o filho do dono da casa.
  • Thialfi deu um olhadela em seus pais e estes confirmaram, sem coragem para contestar o desejo do irascível deus. Num instante, as duas cabras estavam na sala apertada, espremidas com os demais.
  • - Matem-nas e façam uma bela caldeirada! - disse Thor ao casal.
  • O velho, entretanto, temeroso de que isto pudesse enfurecer o deus, disse:
  • - Mas, poderoso deus, são as suas cabras!...
  • - Loki, mate-as você, já que nossos anfitriões se recusam a nos saciar a fome! - bradou Thor, com o semblante ainda mais irado.
  • Loki deu cumprimento à ordem, e logo os pedaços das duas cabras estavam nadando dentro de um imenso caldeirão. Thor e Loki comeram com imenso prazer, mas Thialfi e seus pais mal puderam mastigar alguns bocados, pois temiam estar cometendo algum sacrilégio.
  • Thor custou a perceber a angústia dos anfitriões, mas, uma vez avisado por Loki, tratou de lhes acalmar a aflição.
  • - Não se preocupem - disse ele, com a barba ruiva manchada pelo molho. - Basta que recolham os ossos das duas cabras e os coloquem dentro de suas respectivas peles e amanhã os animais estarão inteiros outra vez.
  • O rosto dos anfitriões iluminou-se e, somente então, puderam comer a refeição - ou pelo menos o que sobrara dela - com gosto e alegria.
  • Loki, entretanto, dominado pelo seu furor em armar confusões, decidiu aprontar uma para cima daqueles pobres coitados. Cochichou, matreiramente, ao ouvido de Thialfi: - Thor não lhes deixou grande coisa: veja só o que restou...!
  • De fato, dentro do caldeirão restavam apenas os ossos das duas cabras, lisos como pedras.
  • - Abra um deles e chupe o tutano! - cochichou ainda a Thialfi. - Verá que não há nada mais saboroso do que o tutano de uma bela cabra cozida!
  • O jovem, esfomeado, seguiu o conselho e saboreou o petisco. Terminada a refeição, foram todos deitar, não sem antes devolver os ossos às respectivas peles.
  • Nunca uma noite foi tão contrastante como aquela, pois enquanto os dois visitantes dormiam e roncavam como duas sonoras tubas, os moradores da casa não podiam desgrudar os olhos, lá de seus miseráveis leitos, das peles recheadas de ossos, que jaziam atiradas a um canto. Mesmo quando tentavam fechar os olhos para dormir um pouco, tudo o que conseguiam ver nesta modorra angustiante era as duas cabras desconjuntadas, tentando se manter, desesperadamente, em pé e o deus tomado pela ira, arrebentando com tudo.
  • Porém, tão logo amanheceu, o velho dirigiu-se humildemente a Thor, e disse, enquanto fazia girar em suas encarquilhadas mãos o seu velho gorro:
  • - Poderoso Thor, será que elas voltarão a ser como eram...?
  • - Elas quem?... - disse o deus, com as barbas emaranhadas pelo sono.
  • - As suas cabras! - disse o velho, apontando para as peles cheias de ossos.
  • - Ah, sim! - exclamou o deus, tomando de seu martelo Miollnir. - Aproximando-se, então, dos restos dos animais, tocou-os com o martelo e eis que ali estavam outra vez, inteiros c saudáveis, os dois animais!
  • - Viva! - exclamou Thialfi junto da mãe, que batia palmas feito uma criança.
  • Mas cedo desfez-se a alegria, pois logo Thor percebeu que uma das cabras coxa. Thor, encolerizando-se, ameaçou matar a família inteira, enquanto Loki tapava a boca com a mão para esconder o riso.
  • Os dois velhos arrojaram-se diante do deus e clamaram de mãos postas:
  • - Por favor, poderoso Thor! Perdoa a gula de nosso irresponsável filho! Há muitos meses que não sabia o que era provar o gosto de uma carne!
  • Mas, Thor estava irredutível e prestes a fazer descer seu pavoroso martelo sobre a cabeça dos infelizes quando o velho, em desespero, disse-lhe:
  • - Leve consigo o meu filho! Ele será seu escravo para sempre! Somente então, Thor sentiu aplacar sua ira.
  • - Está bem, levarei o jovem comigo! - disse ele, encaminhando-se para a porta, juntamente com Loki, o causador de tudo.
  • E foi assim que, ao mesmo tempo, Thialfi tornou-se o servo predileto de Thor e dois pobres pais perderam o animo de sua velhice.

  • Thor em Jotunheim
  • O deus Thor, filho de Odin, estava viajando rumo a Jotunheim, a terra dos Gigantes, junto com Loki e seu criado Thialfi, quando chegaram todos a uma grande floresta.
  • - Alto! - disse ele, erguendo o braço. - Vamos parar aqui e procurar um lugar protegido para passar a noite.
  • Cada qual seguiu para um lado até que Thor exclamou:
  • - Acho que encontrei um bom lugar!
  • Thor estava diante da entrada de uma imensa caverna; portando um archote, ele adentrou-a junto com os demais.
  • - É um lugar amplo e bem seco! - disse o servo Thialfi.
  • - Será que não é a toca de algum animal? - perguntou Loki.
  • - Vamos ver! - disse Thor, avançando mais para o interior.
  • Após investigar com cautela o local, perceberam que estava desabitado.
  • - Vejam! - exclamou Loki. - Há várias câmaras por aqui!
  • De fato, a caverna bifurcava-se em cinco câmaras amplas e separadas do tamanho de grandes salões.
  • - Vamos passar a noite nesta - disse o deus do trovão, acomodando-se junto com Loki e Thialfi na mais ampla das câmaras.
  • Os viajantes dormiram um bom pedaço da noite, quando, subitamente, foram despertados por um tremendo baque seguido de um ruído assustador, que lembrava o grito de mil ursos.
  • - O que foi isto? - exclamou Loki, pondo-se em pé.
  • Thor e Thialfi ficaram alertas, mas ao ruído seguiu-se um profundo silêncio. Então, todos voltaram a dormir e, como o ruído assustador não voltasse a acontecer, estiveram em paz o restante da noite.
  • Na manhã seguinte, saíram todos da caverna.
  • - Que ruído pavoroso terá sido aquele? - indagou Thialfi, que ainda estava intrigado com o incidente da noite.
  • - Esqueça - disse Thor -, florestas escuras como estas são pródigas em ruídos misteriosos.
  • Mas, o deus estava enganado, pois, logo adiante, deram de cara com um monstruoso gigante que, estirado na relva, ainda dormia profundamente.
  • - E esta agora? - disse Thialfi, amedrontado.
  • - Vamos embora, antes que ele acorde! - sussurrou Loki, dando as costas do gigante. Infelizmente, a orelha dele era tão grande, que captou o sussurro dos três e, logo, seus gigantescos olhos abriram, cobertos por remelas do tamanho de batatas fritas.
  • - Quem são vocês e o que fazem aqui? - gritou a criatura prodigiosa, erguendo-se com uma rapidez espantosa para alguém do seu tamanho e se pondo i procurar algo com grande avidez.
  • - Sou o poderoso Thor e venho com meus companheiros de Asgard no rumo de Jotunheim - disse o deus, empunhando por cautela o seu martelo Miollnir.
  • Mas o gigante continuava a andar de lá pra cá, sem dar muita atenção aos forasteiros até que, de repente, deu um grande grito:
  • - Ah, achei!...
  • Era a sua luva, que Thor e os demais haviam tomado por uma caverna. E a câmara, que todos haviam achado confortável e espaçosa, não era mais do que o polegar da luva!
  • - Sou Skrymir e vou indo também para Jotunheim - disse ele, enquanto ajeitava a luva. - Por que não vamos todos juntos?
  • Loki deu uma olhadela para Thor, mas este fez um sugestivo sinal com o martelo para que aceitassem o convite do gigante.
  • Após uma rápida refeição, seguiram em frente, tentando a muito custo acompanhar as enormes passadas do gigante, que andava adiante deles, balançando nas costas sua ruidosa mochila de provisões. Ao ver, entretanto, que os asgardianos também levavam algum mantimento, declarou com a mais cândida das vozes:
  • - Hum... vejo que vocês também têm o seu farnel! Partilhemos, então, como bons companheiros de viagem, as nossas provisões...!
  • Skrymir tomou as mochilas dos três e as introduziu dentro da sua e, com isto, estava feita a partilha.Assim, viajaram durante todo o dia com o gigante regalando-se de hora em hora, ao mesmo tempo em que os outros penavam sede e fome contínuas, até que o dia escureceu novamente e todos acomodaram-se sob uma grande árvore para descansar e passar a noite. O gigante, entretanto, antes de começar a roncar disse aos outros para que se servissem, livremente, dos mantimentos que havia em abundância na sua mochila, acrescentando cinicamente: "dormir de estômago vazio provoca pesadelos".
  • Não houve uma transição muito grande entre suas palavras e seu sono, pois antes que sua boca se fechasse novamente, fez-se ouvir por toda a floresta o som de seu poderoso ronco. Enquanto isso, Thor, tão faminto quanto os seus companheiros, tentava abrir a maldita mochila. Infelizmente, ela estava tão bem amarrada, que foi impossível desatar-lhe um único nó. Depois de lutar por um longo tempo com os nós cegos, Thor acabou por perder de vez a paciência e exclamou, irado:
  • - Definitivamente, este gigante sujo está debochando de nós!
  • O deus agarrou o seu martelo e avançou para o gigante, que permanecia adormecido, e desfechou um furioso golpe em sua testa. Um estrondo cavo ressoou por toda a floresta, como se um pavoroso trovão tivesse eclodido.
  • - O que houve? - disse Skrymir, abrindo um de seus olhos. - Oh, esta árvore deve estar cheia de ninhos de pássaros, pois acaba de cair uma pena de um filhotinho sobre a minha testa. - Depois, voltando-se para Thor e seus companheiros, perguntou: - Como é, já fizeram a refeição...? - Mas, antes que o deus pudesse responder - e certamente reclamar - Skrymir já havia adormecido outra vez.
  • Thor, inconformado com a desastrada tentativa, empunhou novamente o seu martelo e chegando ao pé do gigante desferiu-lhe novo golpe, agora, sobre o topo do crânio. Skrymir acordou e levando a mão à cabeça, resmungou:
  • - Diacho! Agora foi uma noz que caiu! - Em seguida, virou de lado e voltou a dormir, como se nada houvesse acontecido.
  • Loki e Thialfi observavam as infrutíferas tentativas de Thor sem nada dizer, temerosos de que a ira do deus acabasse por se voltar contra eles. Thor resolveu esperar que o dia começasse a amanhecer para tentar um último e definitivo golpe. "De manhã estarei descansado e, então, darei cabo deste miserável!", pensou, acomodando-se para dormir.
  • Tão logo o sol raiou, ele se pôs em pé, mais disposto, embora ainda esfomeado e percebendo que o gigante ainda dormia profundamente, tomou de seu martelo e aplicou-lhe um golpe tão violento, que o instrumento se enterrou até o cabo dentro da cabeça do desgraçado, que acordou com um grande bocejo.
  • - Ou estou muito enganado - disse ele, alisando os cabelos - ou algum passarinho largou uma titica sobre a minha cabeça! - Pondo-se em pé, Skrymir conclamou os demais para que também acordassem.
  • - Vamos, preguiçosos...! - disse ele, estendendo os braços e derrubando dezenas de árvores à direita e à esquerda. - O sol está alto e Jotunheim já está perto!
  • Já haviam começado a andar, quando Skrymir resolveu advertir-lhes:
  • - Preparem-se, pois lá encontrarão gigantes de verdade!
  • - Quê? - exclamou Thialfi, incrédulo. - São ainda maiores do que você?
  • - Maiores...? Você deve estar brincando! - disse o gigante, dando uma sonora gargalhada. - Meu nanico, logo vocês verão que eu não passo de um anão perto deles!
  • Andaram mais um pouco, até que chegaram a uma grande encruzilhada.
  • - Muito bem, aqui nos separamos - disse Skrymir abruptamente.
  • Os três entreolharam-se, surpresos, não sem uma ligeira e indisfarçada manifestação de alívio.
  • - Mas você não vai para Jotunheim? - perguntou Loki.
  • - Não, vou para o norte, mas vocês devem seguir a estrada que vai para leste. Dou-lhes, entretanto, o conselho para que evitem se mostrar arrogantes quando chegarem à terra dos gigantes, pois os habitantes do lugar, e em especial Utgardloki, não admitem que forasteiro algum demonstre presunção diante deles - ainda mais, umas formiguinhas feito vocês.
  • Antes que Thor pudesse responder, o gigante já estava tomando o seu rumo.
  • - Adeus, amigos! Foi um prazer viajar ao seu lado! - disse Skrymir, lançando para as costas a sua recheada mochila. Com duas ou três passadas, desapareceu pela floresta, deixando Thor e os outros a caminho do país dos gigantes.
  • ***
  • Os três companheiros já haviam caminhado bastante desde a separação, quando avistaram uma cidade no fim de uma extensa e elevada planície.
  • - Vejam, lá está um grande palácio! - disse Loki, apontando para a construção, que mesmo de longe já era imensa.
  • Aquele era o castelo de Utgardloki, um dos reis de Jotunheim, o qual, embora o nome, não tinha parentesco algum com o acompanhante de Thor.
  • Na verdade, era um palácio tão alto que ao tentar avistar a mais alta de suas torres quase caíram todos de costas. Quando baixaram os olhos, novamente, deram-se conta de que os imensos portões estavam fechados.
  • - E agora, poderoso Thor? - disse o servo Thialfi, cocando a cabeça.
  • - Vamos tentar abri-los à força - disse o deus do trovão, apoiando as duas mãos na porta maciça, enquanto retesava os músculos das pernas para tentar entrar no palácio. Loki e o criado uniram-se aos esforços do deus, mas foi tudo em vão: as portas não moveram-se um único milímetro.
  • - Ufa!... - exclamou Loki, enxugando o suor da testa. - Por que não tentamos bater a aldrava?
  • De fato, havia uma gigantesca aldrava de bronze colocada no meio do portão, mas estava fora do alcance de qualquer um deles. Então, Thor, depois de estudar melhor a porta, descobriu que havia uma pequena fenda entre as duas pesadas folhas. Para os gigantes era uma fenda tão desprezível que seus olhos não podiam nem percebê-la, mas, para os visitantes, era uma passagem perfeitamente possível de ser atravessada - desde, é claro, que não se importassem em se espremer um pouquinho.
  • - Vamos entrar neste palácio nem que seja a última coisa que eu faça! - exclamou Thor, que possuía em grau admirável a virtude da persistência.
  • Thor se espremeu, então, até conseguir ultrapassar a estreitíssima fenda, sendo seguido imediatamente pelos dois companheiros.
  • - Ótimo! - exclamou Loki. - Já estamos dentro!
  • - Chhh! - fez Thor. - Temos de pegá-los de surpresa, senão nos expulsarão daqui antes mesmo que estejamos em seu salão. Ou esqueceu que deuses e gigantes são inimigos implacáveis?
  • Os três foram avançando, assim, pé ante pé, enquanto vozes retumbantes ecoavam pelos corredores. Por diversas vezes cruzaram com sentinelas postados à margem dos vastíssimos corredores, mas eles eram tão imensos em comparação com os intrusos, que, a menos que tivessem olhos nas canelas, jamais teriam sido capazes de percebê-los.
  • - É ali o salão dos gigantes! - disse Thor aos demais.
  • Tomando a dianteira, o deus escalou um pequeno banquinho e se fez anunciar dali com sua portentosa voz, que, no entanto, diante do vozerio assumiu as proporções diminutas do zumbido de um mosquitinho.
  • Loki, sempre apreciador do ridículo, seja humano ou divino, fazia um grande esforço para controlar o seu riso, enquanto que o criado Thialfi fingia ter perdido algo pelo chão. Tomando, então, Miollnir, o seu poderoso martelo, Thor começou a malhar o banco onde estava até fazê-lo em pedaços.
  • - Atenção, todos! Sou Thor e vim aqui para desafiá-los!
  • Algumas cabeçorras, atraídas pelo ruído do martelo, voltaram-se para a direção de onde provinha aquele minúsculo, mas agora nítido ruído. Ao avistar Thor, entretanto, puseram-se a rir, deliciados, apontando para os visitantes dedos enormes como toras de carvalho desprovidas de ramos.
  • - Oh, então, você é Thor, o famoso deus do trovão? - exclamou uma voz, postada na ponta da grande mesa onde estavam assentados os gigantes. Ela pertencia a Utgardloki, o maioral do lugar.
  • - Sim, é Thor, o matador de gigantes, quem está à sua frente! - esbravejou o deus num assomo verdadeiramente admirável de audácia.
  • - Oh, longe de nós querermos pôr à prova a veracidade de suas palavras - disse o líder dos gigantes, descobrindo os dentes num ar de evidente deboche, embora, interiormente, tivesse dúvidas se não seria mais prudente evitar um confronto com o famoso deus (vai que era mesmo verdade o que diziam de sua força...!).
  • - Muito bem, forasteiros, aproximem-se - disse Utgardloki, fingindo-se bom anfitrião. - Há sempre lugar à minha mesa para mais três bocas!
  • "Ainda mais deste tamanhinho!", disse ele à boca pequena (por assim dizer) aos seus vizinhos de mesa, que imediatamente caíram na gargalhada.
  • - Mas, para que desfrutem de minha generosa hospitalidade - continuou a dizer Utgardloki em tom grandiloqüente -, terão os três de nos brindar com algum prodígio de força ou habilidade!
  • Loki, que não estava para muitas conversas, e sentia dentro do estômago um buraco do tamanho daquelas criaturas, adiantou-se e disse:
  • - Quanto a mim, o único prodígio do qual me sinto capaz, neste instante, é o de comer mais do que qualquer um de vocês!
  • - Muito bem, está aceito o desafio! - disse um deles, erguendo-se no mesmo instante. Era Logi, um dos gigantes mais fortes - e seguramente mais esfomeado - de todo o bando. - Vamos começar o desafio imediatamente!
  • Loki sentou-se em frente ao gigantesco Logi e, logo, travessas imensas de carne foram postas diante dos dois. Para Loki, a carne foi servida sob a forma de pernis, enquanto, para o gigante, foram servidos bois inteiros.
  • Dado o sinal, os dois competidores arreganharam os dentes e lançaram-se às suas porções com terrível voracidade. Loki fez jus à sua fama de voraz comilão, tendo esvaziado a sua travessa no mesmo espaço de tempo que o adversário. Só que este, como a perfeita personificação da Fome, não só devorara a sua porção como também os ossos e a travessa, o que lhe valeu a vitória.
  • - Muito bem, agora é a sua vez, nanico! - disse Utgardloki a Thialfi, que aguardava em suspense a sua vez de provar o seu valor.
  • - Bem, se eu tenho alguma virtude, senhor gigante - foi dizendo o criado de Thor - é a de ser o mais veloz dos mortais. Por isto, desafio qualquer um dos presentes a me vencer numa corrida.
  • Hugi, o mais veloz dos gigantes ali presentes, bradou da outra ponta da mesa:
  • - Vamos, saiam da frente, que esta é comigo!
  • Thialfi voltou o rosto, rapidamente, em direção ao distante local de onde a voz soara, mas antes que seu eco tivesse terminado, ele já estava diante dele.
  • - Então, nanico, está pronto? - disse Hugi, com um sorriso superior.
  • O rei ergueu-se e foram todos para uma pista que havia no lado de fora do castelo. Os dois, Thialfi e Hugi, foram colocados lado a lado, até que Utgardloki concluiu, a seu modo, a contagem regressiva:
  • - Dez! nove! oito! sete! quatro! seis!... Dez! nove! oito! cinco! dois!... Dez! nove! sete! seis! meia dúzia!... Ora, inferno, partam de uma vez!
  • Os pés de ambos começaram a correr com tal agilidade, que ficou muito difícil observá-los. Mas, com um esforço maior podia-se divisar as pernas de Thialfi, as quais alternavam-se com tamanha rapidez que pareciam imóveis.
  • De repente, entretanto, percebeu-se num pasmo, que Hugi já estava voltando!
  • De fato, o gigante fora tão rápido, que chegara ao fim da pista e retornava agora, cruzando por Thialfi, com uma grande risada. E, antes que o pobre Thialfi conseguisse completar o trajeto, o gigante voltou e venceu-o pela segunda vez.
  • Com Thialfi derrotado, chegara a vez de Thor enfrentar o desafio. Como estivesse muito sedento, propôs aos gigantes uma disputa de bebida.
  • - Tragam-me o maior chifre que houver, repleto de hidromel e beberei tudo de um único gole! - disse o deus, confiante em seu fôlego prodigioso. Utgardloki trouxe um chifre verdadeiramente imenso - tão imenso, que não se podia enxergar a sua extremidade - e o colocou diante de Thor.
  • - Pronto, aqui está, falastrão! - disse ele. - Se for mesmo forte, beberá seu conteúdo de um só trago. Se não for tão resistente assim, precisará de dois grandes tragos. Agora, se for um maricas, então, terá de dar três longos goles. Mas, não creio que tal aconteça, pois nunca ninguém tão fraco assim se apresentou por aqui! - acrescentou o gigante, empinando logo o chifre.
  • Thor encheu os pulmões de ar e colou a boca ao bocal, puxando todo o conteúdo do gigantesco chifre. Suas bochechas ficaram infladas e lustrosas, mas tão logo engoliu aquele grande trago, percebeu que ainda havia muito para ser engolido. Na verdade, a marca que indicava a quantidade existente dentro do recipiente mal se movera. Derrotado na primeira tentativa, Thor tomou novo fôlego e puxou nova e assustadora quantidade para dentro da boca, que quase estourou de tanto líquido. Mas, foi em vão: a marca permanecia praticamente inalterada. Os gigantes entreolhavam-se com risos e caretas.
  • - Não quer tentar uma última vez? - disse Utgardloki ao pé do ouvido de Thor.
  • Enchendo os pulmões de ar, o deus sorveu um último e prodigioso gole, a ponto de o hidromel escorrer-lhe pelas barbas numa verdadeira cachoeira.
  • - Desisto! - disse Thor, sabendo que nem em mil goles conseguiria beber todo o conteúdo.
  • - Que pena! - exclamou Utgardloki, falsamente condoído. - Pensei que o poderoso deus fosse um pouquinho mais resistente! Mas, como você é uma divindade muito respeitada, vou dar-lhe uma nova chance em um novo desafio! - disse Utgardloki, fazendo sinal para que trouxessem o seu grande gato cinzento.
  • - Temos aqui uma nova competição da qual participam somente as crianças: consiste apenas em levantar do chão meu gato de estimação. É lógico que eu não teria me atrevido a propor tal brincadeira ao grande Thor seja não tivesse comprovado a sua lamentável fraqueza!
  • O magnífico gato, apesar de também ser gigantesco, não parecia, de fato, representar um desafio acima das forças de Thor. Por isso, o deus acolheu o desafio com um sorriso de alívio.
  • Thor aproximou-se do bichano, dizendo: "Aqui, Mimi, aqui!" O gato aproximou-se de mansinho com suas patas branquinhas da cor da neve e ronronou suavemente. Então, o deus envolveu o gato em seus poderosos braços e começou a suspendê-lo - ou a imaginar que o suspendia, pois na verdade o gato apenas esticara um pouco as suas pernas para dar a impressão de que cedia aos esforços do deus.
  • - Está difícil, deus do trovão? - disse o gigante, escarnecendo.
  • Todos os demais riam fungado, fazendo coro com o rei, inclusive, o gato, que parecia ter na boca ornada por elegantes bigodes um sorriso sutil de ironia.
  • Por mais que Thor forcejasse, nada conseguiu, além de fazer o gato erguer uma de suas patas brancas, o que pareceu, por fim, mais uma condescendência do bichano do que qualquer mérito seu.
  • - É fracote mesmo! - disse um dos gigantes, dobrando-se de tanto riso.
  • Utgardloki balançava a cabeça numa fingida desolação.
  • Thor, entretanto, tornara-se a tal ponto irado por causa de tantas humilhações, que resolveu lançar um último desafio aos atrevidos gigantes.
  • - Está bem, sou pequeno - disse o deus, espumando de raiva -, mas quero ver qual de vocês está disposto a lutar comigo!
  • - Meu amigo - disse Utgardloki, olhando para os homens sentados nos bancos -, aqui os fortes só brigam com os fortes. No entanto, conheço alguém a quem talvez você possa fazer frente. Chamem Elli, a minha velha ama - disse o rei a um lacaio.
  • Dali a instantes entrou no salão uma velha de cabelos ralos e brancos, que endereçou a Utgardloki um sorriso deserto de dentes.
  • - Velha Elli, aí está um desaforado que diz poder derrotá-la! - disse o gigante à velhota, que, no mesmo instante, começou a arregaçar as saias, preparando-se para o embate. - Mostre a ele quem é o mais forte por aqui!
  • O deus e a velha postaram-se no centro do salão e a um sinal do gigante a luta começou. Thor arremessou-se à adversária com certa cautela, pois não pretendia maltratar aquela velha centenária. Mas, ela não era nada daquilo que aparentava, e dando um pulo para o lado, que fez inveja ao próprio gato, esquivou-se do ataque e veio postar-se às costas de Thor. Em seguida, aplicou uma valente chave em um dos braços do adversário com tal força, que Thor viu-se obrigado a se ajoelhar e a reconhecer a derrota.
  • Com isto, encerraram-se as disputas. Thor e seus humilhados companheiros receberam um leito cada qual para descansar antes de partir na manhã seguinte. Tão logo os primeiros raios do sol surgiram no horizonte, já estavam os três prontos para ir embora daquela terra infamante. Utgardloki mandou que lhes servissem uma mesa repleta de iguarias e bebidas. Depois, acompanhou-os até a porta da cidade, e, antes que partissem, perguntou:
  • - E, então, Thor, gostou da viagem e da hospitalidade?
  • - Se lhe agrada saber, direi que nunca fui tão humilhado em toda a minha vida! - disse o deus, cabisbaixo, louco para ganhar a estrada.
  • - Bem, agora já pode se acalmar - disse Utgardloki, tão logo haviam transposto os portões do palácio. - Agora, que você está fora da cidade posso lhe contar o que, verdadeiramente, ocorreu.
  • Os três entreolharam-se, sem nada entender.
  • - Palavra de honra, se soubesse que possuía uma força tão descomunal e companheiros tão extraordinariamente competentes jamais teria permitido que aqui entrassem. Na verdade, iludi-os o tempo todo com minhas artimanhas. Primeiro, na floresta, onde amarrei a mochila com arame para que não pudesse desamarrá-la.
  • - Você? - exclamou Loki.
  • - Sim, Skrymir era eu mesmo! - disse Utgardloki com um grande riso. - Aquelas três pancadas que me desferiu com seu martelo, seguramente, teriam-me esfacelado o crânio, caso me tivessem realmente atingido! Mas, fui hábil o bastante para enganá-lo no momento certo, entrando para debaixo da terra, de modo que suas pancadas atingiram enormes montanhas, produzindo aquelas fendas profundas, que podem ver lá adiante.
  • Os três asgardianos olharam naquela direção e viram três grandes abismos que o martelo de Thor abrira naquelas encostas.
  • - Da mesma forma, foram enganados nas outras disputas - continuou a dizer o gigante. - O adversário de Loki na disputa da comilança não foi outro, senão o próprio Fogo, que devora tudo quanto encontra pelo caminho. Já aquele contra quem Thialfi disputou a corrida era o Pensamento, sendo impossível a qualquer um correr na mesma velocidade que ele.
  • Loki e Thialfi pareceram aliviados ao descobrir que não haviam sido humilhados, afinal.
  • - Quanto a você, poderoso Thor, jamais poderia ter esvaziado aquele imenso chifre, pois ele estava ligado na outra ponta ao inesgotável oceano; mesmo assim, se olhar bem na direção do mar, verá que ele está com a maré bem baixa, o que prova a quantidade prodigiosa de água que engoliu! Quanto ao gato, cumpre dizer que operou um feito não menos invejável, pois aquele bichano era na verdade a serpente Midgard, a vasta serpente que contorna toda a terra com suas longas espirais. Ficamos verdadeiramente espantados quando vimos que havia conseguido erguê-la um pouco acima do chão. Mas, de todas as derrotas, com certeza, a menos infamante foi a que lhe pareceu a mais vergonhosa: pois aquela velhota contra a qual lutou era a própria Velhice e jamais alguém pôde vencê-la em tempo algum.
  • Ao escutar o fim do discurso de Utgardloki, Thor mostrou-se tão furioso - pois, afinal, havia feito papel de bobo diante de toda aquela corte - que ergueu seu martelo Miollnir, pronto a aplicar um castigo de verdade ao gigante. Este, porém, percebendo o perigo, desapareceu instantaneamente.
  • Sem se dar por vencido, Thor retornou ao castelo para destruir tudo, mas quando lá chegou, uma última decepção o aguardava: o castelo havia desaparecido, como num passe de mágica!

  • O desaparecimento de Miollnir
  • Thor, deus do trovão e filho de Odin, despertou, certa manhã, com uma estranha sensação: a de que lhe faltava algo muito importante. "Que vazio é este, que tanto me angustia?", perguntava-se o deus desde o instante em que abrira os olhos.
  • Esta desagradável sensação prolongou-se pelo resto da manhã até que o deus finalmente, deu-se conta do que era, quando encontrou um bilhete justo no lugar onde costumava guardar seu martelo Miollnir.
  • Caro Thor: caso deseje retomar a posse de seu poderoso martelo, favor entrar em contato comigo, pois eu o escondi sob as profundezas da terra, em um local ignorado. Estou aberto a toda negociação. Assinado: Thryn, da maravilhosa raça dos Gigantes.
  • - Loki! Loki! - bradou Thor, exigindo a presença do trapaceiro deus.
  • Em instantes, o deus de longos cabelos lisos e escarlates estava à sua frente.
  • - O que houve, poderoso Thor? - disse Lotei, assustado.
  • - Aquele maldito Thryn furtou meu martelo! - disse Thor, quase possesso. - Quero que vá, imediatamente, até ele para saber quais são os termos da sua proposta para efetuar a devolução de Miollnir. Você é descendente daquela raça maldita e saberá engambelá-lo melhor do que eu. Caso contrário, eu mesmo irei até onde este verme se esconde e o esmagarei!
  • Antes de partir, Loki foi até Freya, a deusa do amor, para lhe pedir um favor.
  • - O que quer aqui a esta hora? - disse ela, mal-humorada e com cara de sono, pois acordava sempre muito tarde.
  • - Preciso que você me empreste o seu casaco de pele de falcão para cumprir uma importante missão para Thor - disse Loki.
  • - Aonde vai?
  • - Houve um terrível furto!
  • - Furto...? Que furto?
  • - O gigante Thryn furtou o martelo de Thor!
  • - Que horror! - disse a deusa, tornando-se rubra. Depois, indicando o local onde guardava seu casaco, completou: - Vamos, pegue-o e trate logo de recuperar a arma do pobre Thor!
  • Freya sabia muito bem que, sem seu martelo, Thor não poderia defender Asgard de um eventual ataque dos gigantes, seus tradicionais inimigos.
  • Loki envergou o casaco e se metamorfoseou, logo, em um elegante falcão de penas rubras como o fogo. Assim travestido, percorreu as amplidões que levavam à morada dos gigantes, em Jotunheim. Após circular por vários locais, acabou por descobrir a caverna onde se escondia o temível Thryn. Em instantes, pousou na entrada do gélido covil e disse com a voz mais nobre possível:
  • - Ó Magnânimo Thryn, vim buscar o martelo do Magnífico Thor!
  • - Entre logo, miserável Loki - disse uma voz algo displicente.
  • A caverna era toda decorada por dourados e polidos escudos, que refletiam as luzes das tochas, a tal ponto que quase se cegava lá dentro.
  • - Nossa, quanta luz!... - exclamou Loki, pondo a mão sobre os olhos.
  • - É que sou meio míope e gosto de tudo às claras - disse o gigante, refestelado em seu esplêndido trono.
  • - Se gosta de tudo às claras, diga-me, logo, onde está Miollnir e retornarei para Asgard com os seus melhores votos.
  • - Você retornará para Asgard - disse o gigante, ajeitando melhor o fantástico traseiro sobre a almofada de veludo escarlate -, mas é para me trazei- a adorável Freya em paga do brinquedinho de Thor, que, certamente, levará de volta depois.
  • Mas, Loki não seria Loki, se ousasse sair da presença do gigante sem lhe dar uma resposta à altura.
  • - Perdão, poderoso gigante - disse ele, com o ar tão sereno quanto possível -, mas jamais poderá usar o martelo sem as luvas de ferro de Thor.
  • - Nem eu, nem ele - respondeu, secamente, o gigante. - Não me obrigue, agora, a repetir tudo o que já lhe disse.
  • Loki retornou rapidamente e logo estava em Asgard diante dos deuses. Depois de comunicar os termos da exigência de Thryn, Loki teve de escutar os gritos furiosos da deusa do amor (ou seja, do sexo), que em hipótese alguma admitia a idéia de ir se juntar ao asqueroso gigante. Thor, a seu turno, também não admitia perder a mais bela das deusas, enquanto que Odin, o deus supremo, bateu no chão diversas vezes com sua lança Gungnir, soltando várias imprecações contra o pérfido. Assim, estiveram por um bom tempo, até que Loki teve uma idéia que julgou excelente.
  • - Eis o que faremos - disse ele, tomando a palavra. - Thor e eu iremos até a morada do gigante travestidos de mulher; ele, de Freya, e eu, de sua escrava.
  • - Está louco? - disse Thor, brandindo seu punho na direção de Loki. - O que dirá de mim aquela raça degenerada dos gigantes, quando descobrirem que ando por aí vestido de mulher?
  • - Dirão, poderoso Thor, que você é um deus muito inteligente e que recuperou seu martelo após haver engambelado todos eles! - disse Loki, recorrendo ao eficientíssimo recurso do apelo à vaidade.
  • O deus do trovão ainda relutou um pouco, mas não descobrindo outro recurso, acabou por ceder.
  • - Deixe-me ver seus vestidos - disse o deus à Freya, meio desenxabido.
  • Depois de ele e Loki terem passado em revista o infinito guarda-roupa da deusa da fertilidade, acabaram por escolher duas peças menos chamativas. Em seguida, tiveram seus rostos pintados por uma pesada maquiagem para ocultar a sombra que suas barbas raspadas haviam deixado.
  • - Vamos de uma vez! - disse Thor, que decidiu sair durante a noite em sua carruagem puxada por duas cabras, para não chamar muito a atenção.
  • Aquela foi uma viagem muito constrangedora. Um silêncio desconfortável acompanhou-os durante toda a viagem até que, finalmente, chegaram aos domínios do gigante Thryn.
  • - Oh, Freya adorável! - exclamou o gigante, que não era lá muito bom das vistas - Você veio, então! E esta donzelinha encantadora, quem é?
  • Loki baixou os olhos, como uma boa serva.
  • - É minha escrava - disse Thor, dando um tapa na cabeça de Loki. - É meio fraca dos miolos. Mas, falemos de nós, audaz gigante!
  • - Oh, sim, falaremos muito de nós! - disse Thryn, levando Thor e Loki para seus amplos salões. Ali, um magnífico banquete de núpcias estava preparado para recepcionar aquela que imaginavam ser a deusa do amor e sua bela escravinha. Os dois foram logo instalados à mesa, cercados de gigantes de colossal estatura e de suas respectivas esposas. Thor e Loki foram servidos regiamente: o deus do trovão, que trazia uma fome tremenda da viagem, não se fez de rogado e se serviu à vontade. Pilhas de carne foram tragadas por ele junto com oito salmões recheados de pequenas carpas e quatro barris inteiros de hidromel, além de uma quantidade fantástica de doces, o que encheu de assombro o seu "noivo".
  • - Nossa, Freya, não sabia que tinha tanto apetite! - disse Thryn, boquiaberto.
  • - Permita-me, poderoso Thryn, explicar-lhe o motivo - disse Loki, disfarçado de escravinha. - É que a deusa esteve tão ansiosa estes dias que antecederam à nossa viagem, que não teve ânimo para pôr nada entre os dentes antes de estar ao seu lado.
  • Thryn deu um largo sorriso de satisfação que lhe arreganhou os dentes.
  • - Muito bom escutar estas coisas! - disse o gigante, deliciado com aquelas palavras. - Muito bom mesmo, assim vale a pena...!
  • Empolgado por aquela declaração indireta de amor, o gigante aproximou seus lábios de Thor e tentou roubar-lhe um beijo. A "deusa", entretanto, lançou-lhe um olhar tão furioso, que as carnes do gigante tremeram por cima dos ossos.
  • - Não é nada, não se assuste! - disse Loki ao ouvido de Thryn. - É apenas o nervosismo que antecede o grande momento...
  • O "grande momento"! Esta expressão trouxe à imaginação do gigante um mundo de fantasias tão sublimes que, entusiasmando-se, chamou logo um criado.
  • - Traga, imediatamente, o martelo! - disse ele
  • Um lacaio trouxe o magnífico Miollnir. Os olhos de Thor faiscaram, enquanto ele remexia as suas saias em busca de sua luva de ferro.
  • - Coloquem-no entre os joelhos de Freya! - ordenou Thryn, incontinenti. - Assim, estará simbolizada a devolução e o nosso casamento!
  • Um dos lacaios aproximou-se, reverentemente, e colocou Miollnir entre os joelhos da falsa Freya.
  • E, aqui, começou o massacre. Tão logo Thor teve ao seu alcance a sua devastadora arma, retirou de dentro das saias a sua mão enluvada e tomou do martelo. Com a outra mão ergueu a mesa e a lançou de encontro à parede com pratos, talheres, sopeiras douradas e tudo o mais.
  • Um alarido de medo escapou da garganta dos gigantes, quando Thor, desvencilhando-se das suas dominadas roupas, partiu para cima dos seus adversários, eliminando, em primeiro lugar, o seu noivo com uma poderosa martelada no crânio. Logo em seguida, arrasou com tudo, de tal forma, que nem as gigantas ou os lacaios escaparam de sua fúria. Terminado o massacre, subiu de novo no seu carro, junto com Loki, e retornaram ambos para Asgard, levando consigo o martelo e sua honra restaurada.

  • A espada mágica de Freyr
  • Freyr era um deus da raça dos Vanir, contraposta a dos primitivos Aesir, dos quais o poderoso Odin era o líder. Desde sempre os aesires haviam relutado em admitir a companhia dos vanires, considerados por eles como “deuses inferiores”. Durante muitas eras, estas duas classes de deuses guerrearam entre si, até que se firmou um tratado de paz. Houve, então, uma troca de reféns, na qual coube aos vanires remeter aos antigos adversários três de suas divindades: Freyr, deus da fertilidade; sua irmã Freya, deusa do amor; e Niord, pai de ambos e deus do mar.
  • Estas três divindades foram muito bem recebidas em Asgard e, desde então, ali se estabeleceram amigavelmente.
  • Freyr sempre teve sua imagem associada a três prodígios oriundos das mãos de operosos anões: o javali Gullinbursti, que possuía cerdas douradas; o navio Skidbladnir, que além de navegar, era capaz de voar e ainda podia ser dobrado e colocado dentro do bolso do deus, como um lenço. Mas, de todos os prodígios associados à fama de Freyr, nenhum foi mais admirado – e justamente temido – do que sua espada milagrosa. Esta arma maravilhosa tinha o dom de destruir sozinha os inimigos de seu dono.
  • Freyr achava-se sentado sobre Hlidskialf, o trono mágico de Odin, de onde podia avistar todo o universo. Aproveitando a ausência dos mais poderoso dos deuses, ele contemplava, dali, a vastidão dos nove mundos, desde as profundezas de Niflheim até os confins gelados de Jotunheim, a terra dos gigantes. Ali, deteve seu olhar durante um longo tempo, até que a certa altura avistou um linda jovem com sua longa cabeleira dourada a esvoaçar sob o vento gélido que descia das montanhas encapuzadas pela neve.
  • - Justos céus! – exclamou ele, maravilhado. – Quem é esta beldade?
  • Freyr ficou possuído por um desejo incontrolável pela bela criatura e, desde então, perdeu o sossego a ponto de não conseguir mais dormir.
  • - O que está havendo, que anda tão abatido? - disse-lhe um dia Skirnir, seu fiel servidor. - Faz dias que não come e mal bebe o seu hidromel! Anda o dia inteiro de um lado a outro, sinal de que está às voltas com um grande problema.
  • - E, realmente, estou!... - disse Freyr, feliz por encontrar alguém para desabafar. - Ah, Skirnir, desde que pus os olhos no longínquo reino dos gigantes e vi lá uma bela jovem a passear pelos campos gelados, perdi o sossego! E o pior de tudo é que não sei quem ela é nem o que hei de fazer para conquistá-la...
  • Skirnir ficou observando o estado lamentável em que seu senhor se encontrava, e, pelo tom pálido de suas faces, pôde comprovar, que, realmente, ele estava perdidamente apaixonado.
  • - Skirnir, preciso de um grande favor seu! - disse Freyr, em desespero.
  • O criado sentiu que estava prestes a arrumar uma bela encrenca.
  • - Quero que vá até Jotunheim e descubra quem é aquela adorável jovem!
  • Skirnir ficou mais pálido do que o próprio deus. Afinal, ter que enfrentar uma viagem por terras inóspitas e fazer frente ao provável ataque de uma legião de gigantes não era uma perspectiva nada agradável.
  • Freyr, percebendo o receio que se desenhava no rosto do servidor, fez-lhe, então, uma oferta intempestiva:
  • - Emprestarei a você, fiel Skirnir, o meu maior bem: a minha valiosa espada!
  • "A espada mágica de Freyr...!", pensou o servo, sem poder acreditar. Num instante, os seus receios evaporaram.
  • - Está bem, eu irei! - disse ele, quase eufórico.
  • Freyr, no entanto, sentia que acabara de cometer uma terrível imprudência. "Separar-se de sua espada mágica?", dizia num tom de censura uma voz dentro de si. Ele nunca fizera isto antes, e aquela mesma voz interior parecia lhe dizer que, se o fizesse, nunca mais tornaria a vê-la. Mas, afinal, o seu desejo pela jovem venceu a sua reticência e ele autorizou a partida de seu criado.
  • - Vá em frente e me traga de qualquer jeito a jovem!
  • - Deixa comigo! - disse Skirnir, que já se sentia feliz por poder dar início àquela que, sem dúvida, seria a maior de suas aventuras.
  • Skirnir partiu para sua longa viagem, sentindo-se orgulhoso como um deus. Durante longos dias e noites, cavalgou pelas vastidões dos nove mundos, escutando com infinito deleite a espada retinir de encontro ao estribo, até que a paisagem começou a se tornar verdadeiramente gélida e sombria. Sobre a sua cabeça, massas imensas de nuvens escuras e carrancudas faziam cair alternadamente torrentes de uma chuva gelada ou de uma neve pesada como chumaços compactos de algodão. Com o capuz puxado até o nariz e o vermelho manto enrolado duas vezes sobre si, Skirnir substituiu a cavalgada ágil de seu cavalo por um trote cauteloso ao se aproximar da temível morada dos gigantes.
  • Após fazer algumas investigações, descobriu que a jovem se chamava Gerda e que morava no castelo de seu pai Gymir. Skirnir dirigiu para lá o seu cavalo, sem nunca, entretanto, descuidar da cautela. Tão logo foi se aproximando, descobriu que motivos para tanto realmente não faltavam, pois o castelo onde a jovem morava estava cercado por um muro feito de labaredas gigantescas.
  • "E esta, agora...!", pensou Skirnir, puxando as rédeas do cavalo, que escarvava impacientemente a neve, disposto a se arremessar de qualquer jeito sobre o terrível anel de chamas.
  • - É isto mesmo o que você quer? - disse Skirnir, colando a boca à orelha do cavalo.
  • O animal, como se tivesse entendido perfeitamente as palavras do cavaleiro, confirmou duas vezes com a cabeça, fazendo com que a neve acumulada em suas crinas se desprendesse numa pequena chuva alva. Logo em seguida fez uma meia volta e retornou num ágil galope. Skirnir afrouxou as rédeas o mais que pôde e agarrado ao pescoço do animal atravessou destemidamente as labaredas. Mas, graças ao galope velocíssimo, ambos chegaram praticamente incólumes do outro lado, apenas com alguns ligeiros chamuscos na crina do cavalo e no manto de Skirnir, tendo agora à sua frente as torres do castelo de Gymir.
  • Entretanto, sequer tiveram tempo de se recuperar do primeiro desafio, quando viram surgir em sua direção enormes cães cinzentos, que mais se assemelhavam a gigantescos lobos; suas goelas escancaradas ladravam de maneira ensurdecedora.
  • A matilha cercou o cavalo de Skirnir e foi, então, que o jovem aventureiro pôde conhecer pela primeira vez as virtudes da espada mágica, pois bastou quede desse o grito de ataque para que ela, sozinha, saltasse da sua bainha prateada e fosse esgrimir contra os ferozes cães. Num instante, estavam todos os animais caídos sob a neve, com seus ventres abertos e palpitantes a fumegar sob o vento gélido da manhã.
  • É claro que esta algazarra toda acabou por despertar a atenção de Gerda, a filha de Gymir. Correndo até a janela de seu quarto, ela avistou aquele cavaleiro montado no centro de um círculo de cães mortos, cujo sangue tingia o tapete branco da neve.
  • - O que quer aqui, forasteiro? - disse ela, alarmada. - Fale ou um exército inteiro desabará sobre você!
  • Um silêncio cortado apenas pelo vento assobiante, que passava por entre os galhos secos das árvores despidas, tornou a situação ainda mais desconfortável.
  • - O que está esperando? - gritou ela, lá de cima. - Diga, logo, da parte de quem você vem ou desapareça de uma vez!
  • Skirnir viu apenas a cabeça dourada dela mexer-se lá no alto, por entre os flocos de neve que caíam. Sua voz chegou apenas um pouco depois, entrecortada pelo vento. Mas, ainda assim, ele pôde compreender o sentido de suas palavras.
  • - Freyr, o nobre deus, deseja lhe fazer um pedido! - gritou Skirnir.
  • A donzela esteve algum tempo indecisa, mas, finalmente, deu ordem para que abrissem os portões do castelo.
  • Skirnir adentrou os imensos corredores do palácio de Gymir. Apesar de verdadeiras fogueiras estarem acesas noite e dia nas diversas lareiras do salão principal, observou que, ainda assim, diversos estalactites pendiam, ameaçadoramente, do teto, como transparentes espadas de gelo. Depois de subir os degraus de uma escada que parecia nunca mais acabar, Skirnir viu-se diante da porta do quarto.
  • - Entre, mensageiro - disse uma voz delicada, muito diferente daquela que escutara aos berros sob o chicote do vento.
  • Skirnir adentrou a grande peça. Gerda, apesar de estar vestida num elegante manto de peles, parecia, no entanto, tê-lo feito um pouco às pressas, pois uma das pontas da gola estava torcida para dentro. Seus cabelos dourados, verdadeiramente belos e impressionantes, também pareciam algo despenteados e tinham grudados em si alguns flocos ainda endurecidos de neve.
  • - Por favor, esteja à vontade e diga, logo, que recado traz de seu senhor - disse Gerda, dando as costas a Skirnir e indo se sentar um tanto afastada, num assento comprido e forrado de peles escuras.
  • - Serei breve, princesa - disse Skirnir, entrando logo no assunto. - Meu senhor quer tê-la como esposa e pede que considere esta possibilidade.
  • A princesa arregalou seus olhos azuis e deixou escapar um pedaço de voz sem qualquer nexo, senão o de que traduzia o seu espanto.
  • - Casar-se comigo! - indagou, com um sorriso de estupor. - Meu bom criado, não sei se está ao par do fato de que seu senhor matou meu irmão em uma rixa, há muitos anos.
  • Skirnir foi pego de surpresa. Um ligeiro tremor sacudiu as suas pestanas, mas ele estava tão distante da princesa que ela, certamente, não deve tê-lo percebido.
  • - Minha senhora - disse ele, outra vez, completamente seguro de si. - Meu senhor, certamente, há de lamentar esta infausta coincidência, mas observe o fato de que ele jamais o teria feito se, naquela época, já a conhecesse.
  • A princesa baixou ligeiramente os olhos, como se o argumento a tivesse desarmado. Skirnir sorriu interiormente do seu primeiro triunfo.
  • Gerda, por sua vez, sentindo que subterfúgios não dariam resultado, resolveu ser franca e direta, à boa e velha maneira dos gigantes:
  • - Meu amigo, sirva-se de uma taça de hidromel, que aí está a seu lado, pois a viagem deve ter sido muito cansativa.
  • Mas, antes que Skirnir pudesse fazer o que ela sugeriu, Gerda arrematou:
  • - Depois que tiver saciado sua sede, pode retornar ao seu senhor e lhe comunicar a minha negativa.
  • Skirnir, pego outra vez de surpresa - pois não esperava um enfrentamento tão cedo, - ergueu-se com seus pertences e se dirigiu até a princesa, num passo respeitoso, porém decidido.
  • - Vem apresentar-me suas despedidas, sem sequer provar da bebida? -disse ela, como que adivinhando que ele tentaria outro expediente.
  • - Não, adorável princesa, venho mostrar-lhe, apenas, os presentes que meu amo lhe manda.
  • Sem esperar por outra recusa, Skirnir estendeu à princesa as riquezas, que fariam a inveja de qualquer outra no mundo: seis maçãs escarlates, colhidas dos perfumados jardins de Idun, a deusa da juventude, brilharam diante dos olhos azuis de Gerda. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Skirnir estendeu-lhe lambem Draupnir, o anel mágico de Odin.
  • Gerda, apesar de realmente impressionada com os presentes, ainda assim, teve firmeza bastante para recusar, categoricamente, qualquer compromisso.
  • - São belos presentes, admito, mas minha resposta é não. Por favor, não insista com este assunto, não me obrigue a despedi-lo com palavras que fugiriam à cortesia que devo a um visitante.
  • Skirnir, perdendo de vez a paciência, resolveu mudar de tática e adotar outra bem mais agressiva.
  • - Minha senhora - disse o mensageiro, com o semblante carregado -, a sua impertinência e teimosia obrigam-me a empregar outro expediente.
  • Skirnir sacou sua espada lentamente e o ruído rascante do metal a deslizar pela bainha de prata ecoou pelas paredes do aposento. Depois, mostrou-a à princesa, com um ar bem diferente do anterior.
  • - Está vendo esta espada, jovem dama? - disse o mensageiro. - Ela pertence a meu senhor Freyr e não está acostumada a recusas ou desfeitas. Já cortou, posso lhe assegurar, a cabeça de mais de um gigante atrevido.
  • - Ótimo! - disse a princesa, sem se intimidar. - Esperemos a chegada de meu pai e de seus exércitos para que teste, novamente, o gume de sua espada!
  • Skirnir, mandando às favas o resto de fidalguia, decidiu fazer uso, então, de seu último argumento - o qual, na verdade, não passava de uma ameaça. Das profundezas de seu manto retirou uma varinha mágica, que Odin lhe dera, repleta de maldições inscritas em caracteres rúnicos.
  • - Seu eu fizer uso desta varinha, arrogante princesa, seu futuro será tão negro quanto é branca a neve que recobre todos os campos deste país amaldiçoado! - disse Skirnir, avançando para Gerda, que, pela primeira vez, sentiu o medo agitar suas entranhas. - A luxúria percorrerá cada membro de seu corpo, mas homem algum desejará se aproximar de você. Seu fim será a mais negra solidão! A fome corroerá os seus ossos, mas todo alimento que puser na boca, terá o gosto da água do mar. E, de desgraça em desgraça, chegará a se transformar na mais repulsiva das feiticeiras, expulsa até mesmo das regiões sombrias de Hei!
  • Gerda, intimidada, resolveu, finalmente, ceder à proposta de Freyr.
  • - Está bem, perverso mensageiro... - disse ela, erguendo os olhos num resto de dignidade. - Diga a seu senhor que me aguarde daqui a nove noites no bosque de Barri.
  • - Estou feliz ao ver que a razão retorna ao seu convívio, amável princesa - disse Skirnir, sem uma única nota de ironia na voz.
  • Skirnir despediu-se e já retornava, quando cruzou com uma patrulha adiantada dos gigantes guerreiros de Gymir, que retornavam um pouco à frente do rei. Sem indagar nada, eles foram logo sacando suas espadas e investindo contra o servo de Freyr, o qual ordenou de imediato à sua arma que desse combate aos agressores. A espada cumpriu mais uma vez, brilhantemente, o seu papel. Infelizmente, uma funesta surpresa aguardava o pobre Skirnir, pois, mesmo após terminada a breve escaramuça - na qual pereceram todos os gigantes -, a espada não retornou para a sua bainha. Skirnir, lançando o cavalo em todas as direções chamou por ela durante o resto do dia, porém sem sucesso: a espada de Freyr havia desaparecido para sempre!
  • - Justos céus! - exclamou o mensageiro. - E, agora, o que será de mim, quando chegar ao palácio de meu senhor sem sua espada?
  • Durante todo o longo trajeto de retorno, ele teve um peso indescritível na alma. Quem sabe a espada, cansada de defender alguém que não o seu legítimo dono, resolvera fugir em busca de Freyr, pensava Skirnir, com um fiapo de esperança. Mas quando finalmente chegou em casa para dar as boas novas do noivado, teve a desagradável surpresa de não a encontrar com seu antigo dono.
  • Felizmente, o mensageiro não levara em conta também o fato de que a alegria que levava era muito superior à tristeza que tinha a esconder, de modo que a reprimenda que teve de escutar de seu amo não foi, afinal, nem a décima parte do que esperava. Freyr preferiu deter-se na condição imposta por Gerda, que lhe parecia mais amarga que qualquer outro infortúnio.
  • - Uma noite já é bem longa; duas, mais longas ainda. Mas, como poderei suportar nove infinitas noites?
  • O tempo passou, afinal, e, no dia aprazado, lá estava a bela Gerda a esperar por ele, no campo repleto de trigo, com seus cabelos dourados a se confundir com os delgados talos dos cereais. "Embora, hoje, não haja o vento a esvoaçar seu cabelo, mesmo assim, ouso dizer que está ainda mais bela e delicada do que naquele primeiro dia em que a avistei!", pensou Freyr, ao se aproximar, apaixonadamente, da jovem.
  • Freyr e Gerda foram muito felizes, embora, em algumas noites, ele tivesse sonhos magníficos com sua poderosa espada, que o tornara um dia invencível. Quando acordava, porém, suas mãos tocavam a pele macia da esposa a dormir, calmamente, ao seu lado. Então, Freyr sentia seu coração povoar-se de um misto de tristeza e alegria.

  • O anel de Andvari
  • Odin, Loki e Honir (um deus menor do panteão nórdico) estavam, certa feita, fazendo mais uma de suas viagens exploratórias pelo mundo, quando, ao passar pela beira de um rio, avistaram uma lontra a saborear um dourado salmão.
  • - Ora, vejam! - exclamou Loki, esfregando as mãos. - Temos, ao mesmo tempo, duas presas à nossa disposição!
  • Antes que alguém pudesse fazer qualquer objeção, Loki tomou, rapidamente, uma pedra aguçada nas mãos e a arremessou, acertando em cheio a cabeça do pobre animal. A lontra caiu morta, instantaneamente, às margens do rio, com o peixe ainda entre os dentes.
  • Logo, uma fogueira ardia debaixo de uma árvore. Enquanto Honir assava o salmão num espeto, Loki retirava com amoroso cuidado a pele da lontra.
  • - Dará um belo casaco! - disse ele. - E, de certa forma, será cumprido o seu desejo, minha pobre amiguinha: dentro de instantes, vestido em sua pele, estarei ingerindo a refeição que seu estômago esperava...!
  • - Basta de gracejos - disse Odin, cuja intuição o alertava de que alguma coisa má iria resultar daquela refeição. - Comam logo e vamos embora.
  • Loki e Honir comeram o salmão até deixar somente as espinhas sobre a relva. (Odin, contudo, nada comeu, pois se alimentava somente de hidromel, o néctar divino.)
  • Saciado o estômago, partiram todos outra vez; Loki ia à frente, faceiro, para que ninguém empanasse o brilho do seu novo casaco. Até o fim do dia, não pararam mais até que, já ao crepúsculo, Honir avistou uma pequena casa.
  • - Que tal fazermos uma parada ali? - sugeriu, pois tinha os pés em brasa. Ninguém se opôs e, logo estavam lá dentro, recebidos pela cordialidade de Hreidmar, um velho senhor que pertencia a raça dos Anões.
  • - É uma honra tê-lo em minha casa - disse ele a Odin, relanceando também um olhar aos demais, incluindo-os tacitamente nas boas-vindas.
  • Outra vez, Loki e Honir viram-se diante de uma bela refeição até que, de repente, a vistosa pele de Loki atraiu a atenção do dono da casa.
  • - Estranho, parece-me que já a conheço... - disse o velho anão, sentindo uma angústia oprimir-lhe o peito.
  • Não demorou muito para que Hreidmar fizesse uma dolorosa descoberta.
  • - Oh, deuses! - exclamou ele, com um grito de dor. - Um crime hediondo! Odin e os demais entreolharam-se abismados, sem nada entender; pediram, então, explicações ao anão.
  • - Como? - rugiu ele, colérico. - Dar-lhes explicações? Não, meus senhores, é a mim que as devem, pois este, que aí está, é meu filho Otter!
  • - Seu filho? - perguntou Honir, atônito.
  • - Sim, Otter usava o disfarce de uma lontra para realizar as suas pescarias!
  • - disse Hreidmar, tomando o casaco das mãos de Loki e abraçando-o em prantos.
  • Odin voltou-se feroz para Loki, que quase sumiu debaixo da mesa. "Outra confusão que nos arma!", disse o velho deus com o olhar.
  • - Que ninguém saia desta casa sem antes pagar pelo assassinato de Otter!
  • - bradou o irado anão.
  • No mesmo instante, surgiram Fafnir e Regnir, seus dois outros filhos, armados de lanças e machados, os quais, apesar da pouca estatura, mostravam-se dispostos a dar cumprimento à determinação de seu pai.
  • O velho anão exigiu dos três deuses que lhe efetuassem um ressarcimento pela morte do filho, ou então, que entregassem o pescoço à sua espada. Como todo bom anão, Hreidmar exigiu que o pagamento fosse feito em ouro.
  • - Loki, o assassino, ficará encarregado de arrumar o ouro, que deverá ser suficiente para encher a pele da lontra, empilhando-o ainda por cima até cobri-la totalmente - disse o anão de modo terminativo.
  • Depois de estudar a questão, Odin decidiu acatar as exigências de Hreidmar, mais por pena do velho pai do que por receio das armas de seus minúsculos filhos.
  • - Vá, Loki - disse ele, fazendo um gesto com a mão. - Já que nos meteu nesta enrascada, dê agora um jeito de nos livrar dela também.
  • ***
  • Loki partiu ainda noite fechada. Um teto branco de nuvens recobria sua cabeça, enquanto um vento frio arremessava flocos pesados de neve em todas as direções. Sem poder, naturalmente, levar seu novo casaco, o desastrado deus tinha motivos de sobra para maldizer a sua sorte.
  • - Por que estas coisas só acontecem comigo? - perguntava-se ele, parecendo um fiambre, enrolado três vezes em seu manto fino e insuficiente.
  • Loki deveria ir até o país dos Anões, também chamados de Duendes ou Elfos Sombrios, pois viviam em cavernas ocultas sob a terra.
  • Apesar da nevasca, estava-se já em pleno período do degelo, o que não tornava nada incomum que Loki metesse, de vez em quando, o pé até as canelas, numa profunda poça de água, coberta apenas por uma enganosa casquinha de gelo. Graças, porém, aos bons fados, conseguiu chegar lá com certa rapidez.
  • O dia amanhecia e Loki, na pressa, esquecera de levar suprimentos de modo que seu café da manhã esteve em sério risco de não se realizar. Porém, mais uma vez, surgiu à sua frente um rio salvador - ou antes, mais um rio problemático, como logo se verá. Loki chegou até a margem e observou diversos salmões, vagando de lá para cá sobre o espelho gelado da água. Advertido que fora pelo primeiro incidente, deveria ter preferido ignorar os peixes; mas, como sua fome era maior do que qualquer raciocínio, Loki não hesitou em se servir, mais uma vez, de um daqueles apetitosos peixes.
  • - Este é o mais gordinho...! - disse ele, agarrando um salmão rechonchudo. Entretanto, quando se preparava para meter o desgraçado no espeto, escutou um ruído semelhante a uma voz escapar de sua boca redonda.
  • - Largue-me, imbecil! - disse o salmão, numa voz ofegante. Suas escamas estavam todas eriçadas e suas douradas barbatanas agitavam-se freneticamente.
  • - Maldição...! - exclamou Loki, indignado. - Não há mais salmões ou lontras de verdade neste mundo? - Depois, encarou bem o peixe nos olhos, que arfava miseravelmente, e disse: - Quem é você, afinal...?
  • - Sou Andvari, o mais poderoso de todos os duendes! - gritou o peixe.
  • - Oh, não é!, pelo menos neste momento! - escarneceu Loki perversamente.
  • - Deixe-me ir embora, ordinário!
  • - Posso saber o que fazia dentro da água a estas horas?
  • - Pescava, já se vê!
  • - Como assim?
  • - Que meio melhor de pescar um salmão do que se fingir um deles?
  • - E por que disse que é o mais poderoso de todos os duendes?
  • - Porque sou, já se vê!
  • - Não vejo poder algum num salmão quase morto!
  • - Quer o quê, imbecil?, que eu ande por aí com minhas fabulosas riquezas?
  • - Fabulosas riquezas...? Então, o salmãozinho guarda ouro em casa? Desta vez, Andvari teve ódio de si mesmo: abrira demais a sua boca de peixe!
  • - Quem é o imbecil, agora, espertalhão? - disse Loki triunfante.
  • O deus havia achado o que procurava: muito ouro para resgatar os seus companheiros da enrascada que arrumara com o outro anão.
  • - Leve-me já à sua casa! - disse ele, ameaçando atravessar o salmão de lado a lado num graveto afiado.
  • Sem meios de opor resistência, Andvari levou Loki até sua residência, que estava situada abaixo da terra. Não havia tocha alguma pelos corredores estreitos cavados na própria rocha, pois o brilho intenso que irradiava das janelas da casa de Andvari bastava para iluminá-los perfeitamente.
  • Loki sorriu, satisfeito, como poucas vezes sorrira.
  • Quando ambos entraram na bela casinha, Loki permitiu a Andvari, que retornasse à sua forma normal, uma vez que o duende estava preso ao compromisso de pagar a liberdade com suas riquezas.
  • - Quanto quer?, não muito, espero! - disse o nanico, contrariado.
  • - Oh, nada que vá reduzi-lo à miséria - disse Loki, cujos olhos reluziam mais que o próprio ouro ali ajuntado. De fato, montanhas de jóias e barras de ouro e de prata, além de enormes sacos de ouro em pó, estavam empilhados por toda parte, de sorte que Loki e Andvari só podiam se movimentar em fila indiana.
  • Por detrás de um verdadeiro muro de ouro, porém, ainda podia se percebei' o pedaço de um antigo e pequeno quadro de parede, já sem o vidro protetor. Dele, somente podia-se ler duas palavras, que se destacavam bem nítidas, uma acima da outra: a de cima dizia "ouro", e a de baixo, "dominá-lo".
  • - É o seu lemazinho, hein? - disse Loki, fungando um riso de aprovação.
  • O duende abaixou os olhos e mandou, apressado, que seguissem adiante.
  • - Vamos aliviá-lo um pouco deste aperto danado! - disse Loki, esbarrando os joelhos em enormes baús e canastras atopetados de ouro - Verá como, após a minha saída, a sua casa vai se tornar bem mais arejada...!
  • O duende mordia o lábio inferior.
  • - Vamos, tenho mais o que fazer! - disse ele, com muito maus modos.
  • Loki começou a escolher as suas peças; com um carrinho de mão, foi amontoando tudo o que encontrava de mais valioso até deixá-lo abarrotado de riquezas verdadeiramente celestiais.
  • - Acho que isto basta - disse ele, voltando-se para o duende.
  • Neste instante, porém, percebeu que o pequeno ser ocultara algo dentro do seu bolso esquerdo.
  • - O que tem aí, sabichão? - disse Loki, intrigado.
  • - Nada que vá lhe fazer falta! - disse o duende, azedo.
  • - Vamos, deixe-me ver! - bradou Loki. - Se não me mostrar, não haverá acordo nenhum!
  • Andvari, com a morte na alma, retirou do bolso um pequeno anel. Desde o primeiro instante, ele exerceu uma atração formidável sobre os olhos - e principalmente o coração - de Loki, bem como de todo aquele que o observasse. Era feito de um ouro puríssimo, porém, uma aura - também dourada, mas infinitamente sinistra - o envolvia, como se uma alma imaterial corrompida resguardasse um corpo absolutamente perfeito.
  • Loki aproximou-o do olho, mas não pôde contemplá-lo por muito tempo, tal o fulgor que despendia. Imediatamente, guardou-o em sua algibeira como o bem mais precioso de toda a casa.
  • - Deixe-o comigo, estou lhe avisando! - gritou o duende, com a voz rascante. - Ele trará males terríveis a todo aquele que o possuir!
  • - Oh, sim...! - disse Loki, dando-lhe as costas. - Estou vendo todo o mal que lhe trouxe!
  • - Trouxe você; não é mal o bastante? - disse Andvari, amargurado.
  • Mas, Loki não estava disposto a devolvê-lo por nada deste mundo. Por isso saiu porta afora com seu carrinho sem querer escutar mais unia palavra. Somente quando já estava inteiramente a salvo, voltou a cabeça para se despedir do anão com esta ironia:
  • - Volte para casa, velho avarento! E, agradeça a mim, pois além de ouro, agora sobra também espaço em sua bela casa...!
  • Andvari ainda lhe rogou algumas imprecações, mas este desapareceu, logo em seguida, tomando o atalho de uma escura floresta.
  • Quando retornou para a sua sala, entretanto, percebeu que, de fato, ela se tornara bem mais espaçosa: eleja podia até caminhar por tudo sem ter de arrastar os sapatos, como se eles estivessem amarrados um no outro.
  • Então, subitamente, seus olhos foram atraídos à parede onde antes havia a pilha de ouro. O quadrinho, que até então estivera tapado, voltara a se destacar. Ele o mandara fazer quando era ainda muito jovem - um alegre duende, cuja única riqueza era sair todas as manhãs para ir andar, despreocupadamente, pelos bosques. Desde aquele dia, ele o afixara em sua parede principal e ali esteve, gloriosamente, à vista de todos, durante o período áureo de sua vida. Ainda havia ouro suficiente na sala para iluminar os seus dizeres, cobertos apenas por uma fina camada de pó:
  • "Suas mãos vão se encher de ouro;
  • e, apesar disso, o ouro não vai dominá-lo. "

  • ***
  • Loki retornou à casa do anão Hreidmar, onde estavam Odin e Honir como reféns, e despejou o conteúdo do carrinho diante do anão, que, mesmo assim, ordenou que Loki cumprisse à risca o combinado:
  • - Encha a pele da lontra e depois a cubra com todo o ouro que restar.
  • Loki fez o que o anão ranzinza determinara; mas, tomara o cuidado de entregar o anel a Odin, que desde que pôs os olhos nele cobiçou-o terrivelmente.
  • A pele de lontra encheu-se das riquezas e foi toda coberta com o ouro -ou quase toda, pois o anão Hreidmar, após detida inspeção, encontrou um pedaço de fio a descoberto.
  • - Ponha, ali, o anel - disse ele friamente. Seu tom era de quem dissesse "pensam, então, que não o vi esconderem?"
  • Odin relutou muito, mas tal como Andvari, viu-se, afinal, obrigado a se desfazer de sua preciosidade. Hreidmar apoderou-se do anel, porém, sob as vistas dos dois filhos restantes, Regnir e Fafnir.
  • - Agora, já podem ir - disse ele, como quem desejasse ver-se livre de perigosos rivais.
  • Odin, Loki e Honir deixaram a casa e o fizeram em boa hora, pois a maldição do anel começou a fazer efeito tão logo os três puseram o pé fora da porta.
  • - Que anel magnífico é este? - disse Regnir, tentando se aproximar.
  • - Deixe-me experimentá-lo! - disse Fafnir, com os olhos arregalados.
  • Hreidmar ergueu o braço, ocultando o outro, onde estava o anel.
  • - Não se aproximem! - disse ele furioso. - Não há ouro bastante, aí no chão, para os dois?
  • Sem dúvida que todo aquele ouro era tentador e cada qual, à esta altura, já pensava no meio de ficar com a melhor parte. Otter, o irmão morto, havia desaparecido completamente de seus pensamentos.
  • - Dê-me logo a minha parte! - bradou Fafnir, que era o mais sedento.
  • - E a minha também! - secundou Regnir.
  • Hreidmar, que já havia escondido o anel nas profundezas do seu colete, percebia, agora, o verdadeiro montante da riqueza amealhada por Loki.
  • "Uma imensa fortuna!", pensou ele. "Mas, uma imensa fortuna dividida em três partes, não passará nunca de três pequenas fortunas", acrescentou. Este pequeno silogismo bastou para criar a convicção de que não poderia ser assim.
  • - Depois, veremos a partilha; por enquanto, vou calcular o valor real de todas estas preciosidades - disse ele, dispensando os dois filhos.
  • - Ei, que negócio é este? - disse Fafnir, voltando-se para o irmão em busca de um aliado.
  • - Calado, para fora os dois! - disse o velho, furioso.
  • Fafnir ainda empunhava seu machado. Desta feita, voltou-se para o irmão em busca de um cúmplice.
  • - Vai permitir que lhe passem a perna, imbecil? - disse, raivoso.
  • - Papai, seja razoável; vamos dividir este negócio agora mesmo! - disse Regnir, tentando contemporizar.
  • - Patifes...! Fora daqui...! - respondeu ele. - Como ousam me desafiar?
  • Fafnir, sem esperar mais nada, empunhou seu machado e num golpe repentino liquidou com Hreidmar. Regnir, apavorado, recuou até o fundo do aposento.
  • - Maricas! - disse seu irmão, metendo a mão no bolso do pai abatido e tomando para si o anel fabuloso.
  • - Esta preciosidade fica comigo! - disse ele, momentos antes de fugir com todo o ouro.
  • Regnir fez menção de impedi-lo, mas seu irmão olhou-o de um modo tão medonho que ele não teve a menor dúvida de que teria sido liquidado naquele mesmo instante caso tivesse ousado enfrentá-lo.
  • Fafnir colocou todo o tesouro dentro de uma carroça e partiu no mesmo dia para um local ignorado. Somente muito tempo depois, Regnir descobriu o local do seu esconderijo. Seu irmão, entretanto, dominado pela cobiça e pelo anel, havia se transformado num terrível dragão.
  • Desde então, este dragão tornou-se o vigia perpétuo do seu tesouro, do qual a peça mais importante era um pequeno e dourado anel, em cujo círculo a morte girava, eternamente, à espera da próxima vítima.

  • Sigmund e a espada enterrada
  • Signy era a bela filha de Volsung, rei dos Unos. Ela tinha um irmão gêmeo chamado Sigmund e este foi o único de seus nove irmãos a tomar o seu partido, quando ela se negou a casar com Siggeir, rei dos Godos.
  • Contudo, o casamento realizou-se, afinal, no grande salão do castelo dos Volsungs, onde se reuniram todos os convidados. Siggeir, o noivo, estava radiante, trajado em finas vestes e portando jóias mais preciosas do que a própria Signy, sua futura esposa, a qual preferira vestir-se de maneira mais apropriada ao seu infeliz estado de espírito. As pessoas estavam concentradas ao redor de um grande freixo situado bem no meio do imenso salão dos Volsungs. Na verdade, as sólidas paredes do castelo haviam sido erguidas ao redor daquela árvore, como se o construtor pretendesse reproduzir dentro do castelo o próprio universo, centrado no freixo de Yggdrasil.
  • Nada, de fato, podia ser mais impressionante do que avistar, logo na entrada, aquela árvore descomunal, cujo sólido tronco, de casca espessa e rugosa, brotava do chão e subia de maneira vertiginosa até quase alcançar o elevado teto. Seus galhos espalhados sobre o salão faziam com que uma chuva permanente e esparsa de grandes folhas secas fosse atapetar o assoalho de mármore, dando um aspecto verdadeiramente florestal àquele majestoso salão.
  • A festa transcorria, alegremente, sem que uma única alma ali presente, a exceção de Sigmund, estivesse preocupada com o estado de espírito da noiva. As diversas lareiras, espalhadas por todo o salão, esplendiam magnificamente, multiplicando a presença dos convidados em centenas de sombras deformadas e desencontradas, dando um tom quase sobrenatural à reunião. Siggeir, o noivo, recebia os cumprimentos rudes e efusivos de seus parentes e amigos, nobres das mais diversas procedências, que ainda não haviam cessado de chegar. Ao mesmo tempo, operosos criados iam empilhando à entrada as pesadas peles, as quais, dificilmente, seriam vestidas, à saída, pelos mesmos donos.
  • Em meio a esta verdadeira multidão, entretanto, havia um velho muito estranho, que se recusara a entregar ao criado a sua comprida capa, nem tampouco o seu longo chapéu de aba desabada.
  • - Não prefere deixá-la comigo? - disse o lacaio, referindo-se à longa espada que o velho encapuzado trazia presa à cintura.
  • O olhar ameaçador e sinistro que o estranho desferiu de seu único olho descoberto foi resposta bastante ao lacaio, que lhe abriu passagem rapidamente.
  • Os convidados perceberam que algo de estranho estava acontecendo, quando viram que a massa indistinta começara a se compactar dos lados, enquanto, ao centro, uma pequena brecha ia se rasgando. Era o estranho velho, que avançava por entre os convidados em direção ao freixo, sem que ninguém ousasse interpor-se entre ele e o seu objetivo.
  • - Quem é este mendigo e o que faz aqui? - perguntou Siggeir a um parente que estava ao seu lado. Nem ele, nem ninguém soube, no entanto, responder.
  • Quando o velho postou-se, finalmente, em frente ao largo tronco, um silêncio angustiado desceu sobre todo o salão, quebrado apenas pelo estalar contínuo das imensas toras de madeira que crepitavam nas lareiras. A rápida evaporação da neve acumulada em seus ombros envolvia-o numa evanescente névoa branca e fumegante, o que contribuía para tornar sua figura ainda mais assustadora.
  • - Quem foi o imbecil que deixou este mendigo entrar? - gritou Siggeir, irritado pelo incidente desagradável. - É, por acaso, algum parente seu? -acrescentou, tomando com rudeza o frágil braço da esposa. Sim, porque parente de Siggeir não poderia ser, com aquele aspecto sórdido e vil.
  • O velho, sem dar ouvidos ao burburinho que se avolumava, sacou, de repente, a sua espada. O ruído áspero do metal, deslizando sobre o envoltório da bainha, soou para aquela turba como uma ordem de silêncio, que todos tiveram o juízo de acatar. O brilho das fogueiras refletiu-se sobre o aço erguido com tal intensidade que a todos deu a impressão de que a espada era feita do próprio fogo. E, então, após mirá-la bem no centro do freixo, ele a enterrou com toda a força na madeira de modo que somente o seu cabo prateado ficou à vista.
  • Um murmúrio de espanto rolou por todo o salão, silenciado, cm seguida, pela voz solene do velho.
  • - Aqui permanecerá encravada Notung, a espada perfeita, até que um perfeito herói consiga dela se apossar!
  • Mal terminara de proferir as palavras, o velho lançou a sua cinzenta capa para as costas e se retirou, apressadamente, deixando atrás de si uma multidão aparvalhada. Mas, tão logo, tiveram todos a certeza de que o temível visitante havia se retirado, lançaram-se num tropel furioso em direção ao ponto onde a espada estava encravada.
  • - Notung, ele disse...? - perguntou alguém, admirando o cabo finamente lavrado.
  • - Quem era ele? - perguntava outra voz alarmada.
  • Um exército de braços esticou-se da multidão compactada, como se um único e monstruoso ser de mil braços tentasse apossar-se da cobiçada arma.
  • - Para trás, todos! - rugiu Volsung, o dono do castelo e (ao menos, teoricamente) da maravilhosa espada.
  • O pai de Signy aproximou-se, cautelosamente, do local; com uma de suas mãos, ele tocou o cabo solidamente enterrado no freixo. Apesar de várias mãos ávidas de desejo já terem-no tocado, ele permanecia gelado, como se recém tivesse saído de dentro de um iceberg.
  • - É uma espada mágica...! - disse ele ao genro Siggeir, que viera, rapidamente, postar-se ao lado do sogro na expectativa de ser contemplado com aquele magnífico presente.
  • - Permita, generoso sogro, que seja eu o primeiro a tentar retirá-la! -exclamou Siggeir, com a mais dócil das vozes.
  • O velho Volsung deu uma olhada de esguelha ao genro e disse:
  • - Antes de você, tenho nove filhos para dar a preferência.
  • - Perfeitamente compreensível, meu sogro e meu rei! - disse Siggeir, com um sorriso de subserviência, ao mesmo tempo, em que pensava, enterrando as unhas nas palmas das mãos: "Filho da loba!"
  • Um a um perfilaram-se diante da espada os nove filhos do velho Volsung. Infelizmente todos, a exceção de Sigmund, eram umas lamentáveis nulidades, incapazes de erguer direito as próprias espadas.
  • - Adeus, meus patetas - disse o velho, desgostoso, enquanto os dispensava. - Continuem a procriar, vocês nasceram para isso.
  • Então, quando estava para chegar a vez de Sigmund, o noivo de sua irmã deu um jeito de se atravessar na sua frente.
  • - Meu querido cunhado, permite-me fazer antes de você minha tentativa? Eu receberia isto como um verdadeiro presente de casamento daquele que, de hoje em diante, passará a ser meu irmão predileto. Você não se importaria, não é?
  • - Saia da frente - disse o irmão da pobre Signy, que não suportava sequer olhar para o rosto do novo cunhado. Sigmund estendeu a mão para o punho da espada, enquanto todas as respirações estavam suspensas. Então, mal a tocou, ela se desprendeu com toda a suavidade.
  • - Milagre...! - exclamaram algumas vozes. Alguns mais afoitos caíram de joelhos sobre o mármore, clamando em histeria: "É o rei...! É o rei...!"
  • - Lunáticos! - berrou Volsung. - O rei aqui sou eu! De onde tiraram esta idéia'.' Então, depois da turba serenada, puderam todos apreciar o objeto maravilhoso. Com efeito, nunca se vira uma espada tão bela e preciosamente forjada.
  • - Quanto quer por ela? - foi logo dizendo Siggeir ao cunhado vitorioso de maneira franca e direta.
  • - Se fosse possível vê-lo desaparecer no ar junto com ela, acredite que ela seria sua - disse Sigmund, dando-lhe as costas com o precioso objeto na cintura.
  • O restante da festa, Siggeir tornou-se mal-humorado. Sua noiva era o brinquedo subitamente envelhecido, que empalidecera diante do novo; por isso, passou a tratá-la cruelmente, menos, é claro, quando o sogro surgia por perto.
  • - Creia-me, poderoso Volsung, este é o dia mais feliz da minha vida! -dizia Siggeir ao velho para, em seguida, pensar com rancor: "Vai, filho da loba!"
  • ***
  • Signy, a infeliz noiva, foi morar no reino de seu novo marido. Antes de partir, entretanto, Siggeir fez um convite a Volsung e a todos os seus filhos paia que fossem visitá-lo dali a três meses. "Três meses é tempo bastante para lhes preparar uma bela cilada!", pensou ele, ao expressar o convite.
  • Volsung, incautamente, aceitou, pois queria ver-se logo livre daquela chateação, uma vez que não tinha desejo algum de conhecer as terras do genro, nem tampouco de ir visitar a filha, uma boca inútil da qual, finalmente, se livrara.
  • Os três meses passaram-se e, na data aprazada, Volsung e sua comitiva - na qual se incluíam os seus nove filhos - chegaram às portas da cidade dos Godos. O dia mal amanhecia e os pássaros cantavam alegremente nos espessos arvoredos.
  • Entretanto, tão logo as portas abriram, Volsung e seus homens escutaram o soar terrífico das trombetas de guerra. Logo, uma chuva de flechas desceu das ameias, abatendo uma grande quantidade deles, enquanto Volsung berrava feito louco, puxando as rédeas de seu cavalo:
  • - Traição!... Traição!... Recuem todos!...
  • Mas, já era tarde: quatro colunas imensas de soldados comandados por Siggeir em pessoa, romperam dos portões e se puseram a massacrar de maneira bárbara os homens de Volsung. Antes que o sol estivesse no zênite, estavam todos mortos, a exceção de Sigmund e seus oito irmãos.
  • - Sejam bem-vindos, netos da loba! - disse Siggeir, do alto do seu cavalo, com os longos cornos do seu capacete de chifre a brilhar intensamente sob o sol da manhã. - Depois, voltando-se para os seus homens, arrematou com um gesto de desdém: - Vamos, o que estão esperando para limpar esta sujeirada?
  • Sigmund e seus irmãos foram levados presos, enquanto os soldados de Siggeir empilhavam os corpos dos mortos numa grande pira repleta de estrume. A cabeça do velho Volsung foi espetada em um chuço ao alto da fogueira, que breve arderia à frente das muralhas do castelo.
  • Quanto aos dez irmãos, Siggeir engendrou um método bárbaro de execução para eles: a cada noite um deles seria colocado nu e amarrado ao tronco de uma árvore para que uma esfomeada loba viesse durante a noite comê-los vivos.
  • Assim, a cada noite um dos irmãos de Sigmund foi sendo devorado, regiamente, pela loba esfomeada.
  • Mas, o que pensaria disto tudo Signy, a esposa do tirânico Siggeir?
  • Naturalmente, horrorizada com as atitudes do pérfido marido, ela tentara demovê-lo de sua maldade, recebendo em troca, entretanto, algumas severas surras, que logo a fizeram desistir da idéia de tornar dócil o seu esposo. Decidiu, então, recorrer à astúcia para livrar seu irmão do suplício. Para isto, ordenou que durante a noite, uma serva fosse até ele e lambuzasse seu rosto de mel. Assim, quando o animal chegou para devorar Sigmund, começou a lamber o mel de seu rosto com sua grande língua úmida. Mas seu asco atingiu o auge quando a loba começou a lamber seus próprios lábios! Então, lembrou-se da recomendação que sua irmã mandara por meio da serva: '"Quando a loba estiver próxima de seus lábios, deixe que ela introduza a língua dentro de sua boca!" Sigmund fechou os olhos e assim fez.
  • A loba, com efeito, introduziu sua língua dentro da boca de Sigmund, onde estava guardada a maior parte do mel. Este, tão logo sentiu a língua ao alcance dos seus dentes, cerrou-os com toda a força, dilacerando-a num único golpe.
  • O animal recuou num pulo e fugiu aterrorizado, cuspindo sangue pela neve. Antes de escapar, entretanto, já havia feito o que Sigmund mais desejava: roído suas cordas, que estavam, também, besuntadas de mel, de modo que não precisou mais que um pequeno esforço para se libertar das amarras. Mesmo estando livre, porém, ele não pôde deixar de exclamar, indignado:
  • - Signy deve ter-me pregado uma boa peça, ou, então, não é lá muito inteligente!... Não seria muito mais simples ter mandado que esta serva idiota me desse uma faca, ou que ela mesma me livrasse das cordas, sem que eu precisasse ter de beijar loba alguma?!
  • O fato é que, de um jeito ou de outro, Sigmund agora estava livre para começar a tramar a sua sangrenta desforra.
  • ***
  • Sigmund retornou às pressas para a sua terra, ao mesmo tempo em que continuou a manter contato com sua infeliz irmã. Signy, entretanto, cansada de sofrer calada nas mãos do tirânico marido, desde então, começou a planejar um meio de se vingar dele. Começou por mandar, secretamente, até o irmão os dois filhos, que tivera de sua união para que ele os treinasse. Sigmund, contudo, os desaprovara e expressara isto da maneira mais rude possível, matando-os sem dó nem piedade.
  • Signy, entretanto, amava tanto o irmão que não se sentiu magoada com ele, chegando antes à conclusão de que o sangue de seu marido é que os tornava incapazes de erguer o braço contra o próprio pai. Consciente disto, ela imaginou um meio de gerar um filho com o puro sangue dos Volsungs, sem qualquer mescla de impureza. E, para que isto ocorresse, só havia um meio: gerar um filho com seu próprio irmão Sigmund.
  • Signy havia aprendido algumas artes mágicas com uma poderosa feiticeira, entre as quais, a arte da metamorfose. Assim, um dia, transformou-se numa bela e jovem feiticeira e foi ter com seu irmão, que, sem a reconhecer, apaixonou-se perdidamente por ela. Nove meses depois, surgiu o fruto deste amor proibido: um garotinho que recebeu o nome de Sinfiotli.
  • Sinfiotli cresceu junto de seu pai e com ele viveu muitas aventuras. Muitas lendas corriam a respeito dos dois, e uma, terrível, dizia que ambos tinham o poder de se transformar em lobos, percorrendo unidos os campos e aldeias, matando tudo quanto encontravam pela frente. Um dia, entretanto, o furor de ambos chegou a tal ponto que Sigmund, num acesso de furor lupino, matou seu próprio filho. Arrependido, no entanto, clamou tanto aos céus que o ressuscitassem, que um corvo passou voando acima de sua cabeça e deixou cair do bico uma folha mágica. Sigmund esfregou-a no peito de Sinfiotli, que readquiriu a vida instantaneamente.
  • O esposo de Signy, à esta altura, já havia descoberto o autor da morte de seus dois filhos e a parte que sua mulher tivera neste episódio. Sua vingança não se fez esperar: após armar uma cilada a Sigmund e seu filho, enterrou-os vivos numa fortaleza para que ali perecessem de fome e sede.
  • Mais uma vez, contudo, a irmã de Sigmund auxiliou-o, fazendo com que a espada mágica fosse introduzida na fortaleza. Com ela, os dois puderam, então, escavar uma saída. Mas, desta vez, Sigmund não estava disposto a dar novamente as costas ao seu inimigo.
  • - Vamos até o castelo de Siggeir! - disse ele, voltando-se para o filho. -Esta noite o tirano pagará por todos os seus crimes!
  • Sinfiotli abraçou, ardorosamente, a idéia. O velho brilho lupino ardeu novamente nos olhos de pai e filho e assim ambos rumaram para o castelo. Uma vez lá, Sigmund acendeu duas tochas e disse ao filho:
  • - Ponha fogo em tudo! Deixe os homens de Siggeir comigo.
  • Empunhando sua Notung afiadíssima, Sigmund começou a matar, impiedosamente, um por um dos homens da casa até se ver frente a frente com o pior deles.
  • - Aí está o cão! - disse ele a Siggeir, que ficou branco como a mão da Morte.
  • O desgraçado ainda tentou enfrentar Sigmund, mas somente uma pessoa podia fazer frente à Notung, a espada invencível, e este alguém, certamente, não era o covarde marido de Signy, que caiu ao primeiro golpe desferido pelo adversário.
  • Enquanto Sinfiotli prosseguia a incendiar o palácio, Sigmund deparou-se com sua irmã, Signy.
  • - Vamos embora, minha irmã! - disse ele, estendendo-lhe a mão. Mas, Signy parecia ausente.
  • - Não, Sigmund, o meu lugar é aqui - disse ela, mostrando-se irredutível.
  • - O que está dizendo? - exclamou seu irmão, sem nada entender.
  • - Bem ou mal, o lugar de uma esposa é junto a seu marido!
  • - Oh, louca...! Seu marido era um assassino!
  • - Eu também: não mandei meus próprios filhos para a morte?
  • - Não eram seus filhos, mas daquele cão miserável!
  • - Sinfiotli também é meu filho, nosso filho, filho de um incesto!
  • Sigmund ficou estarrecido diante da revelação. Sem dizer mais nada, deu as costas à irmã, deixando-lhe a liberdade de seguir seu próprio destino.
  • Num instante, as labaredas envolveram completamente o castelo. Signy estava certa de que os deuses não a deixariam sem uma terrível punição e por isso, decidira pagar ela mesma o preço de seu ódio.
  • ***
  • Sigmund ainda viveu muitos anos e participou de muitas batalhas. Já velho, estava participando de mais uma guerra, quando, em meio ao fragor das espadas, viu surgir em sua direção um velho montado em um cavalo de oito patas. Sigmund custou a reconhecê-lo, mas, por fim, teve a certeza: era o mesmo velho que encravara a espada Notung no freixo há muitos anos.
  • O velho desceu do cavalo, envergando seu velho manto acinzentado. O mesmo chapelão de aba caída escondia seu olho cego e foi com o outro sadio, que fuzilou Sigmund com um olhar fatal como o do próprio destino.
  • Era Odin, o deus supremo, que vinha agora cobrar o preço pela espada.
  • - Chegou a hora de nos medirmos, velho herói! - disse o deus a Sigmund, que desceu de seu cavalo, já sabendo que nem mesmo com a espada mágica seria capaz de derrotar o deus, que portava a sua poderosa lança Gungnir.
  • - Sua esposa já está grávida de seu novo filho - disse Odin, com a voz solene. - Ele será infinitamente maior que Sinfiotli ou mesmo você.
  • Sinfiotli havia morrido há muitos anos e foi com alegria na alma que Sigmund recebeu a boa nova. No mesmo tempo em que pensou isto, avistou nos aros uma das Valquírias - cavaleiras, filhas de Odin, que percorriam os campos di' batalha para recolher os heróis mortos e conduzi-los ao Valhalla - que avançou em seu cavalo, retesando a lança em sua direção.
  • Sigmund compreendeu que sua hora chegara. Odin fez um sinal para que sua filha se afastasse e arremessou de próprio a lança cm direção a Sigmund. O herói tentou aparar o golpe com sua espada, mas ela caiu despedaçada aos seus pés.
  • - Gungnir é ainda maior do que Notung! - gritou Odin, recolhendo a sua poderosa lança.
  • A partir daquele instante, a sorte da batalha virou contra os exércitos de Sigmund, o qual acabou morto em uma refrega, cercado por uma legião de inimigos. Mais tarde, sua esposa foi encontrá-lo em meio aos corpos dos moribundos.
  • Sigmund, com a cabeça no regaço da rainha, disse-lhe num fio de voz:
  • - É o meu fim, adorada Hiordi... Esqueça do meu pobre corpo e recolha os fragmentos da espada. - A esposa viu no chão, de relance, os pedaços faiscantes de Notung. - Quero que a entregue a meu filho... - continuou a dizer o rei moribundo. - Ele já está em seu ventre e há de ser maior do que eu...!
  • Depois de profetizar o glorioso destino de seu filho, Sigmund recostou a cabeça e morreu. Somente, então, as Valquírias puderam recolher o seu corpo e levá-lo à morada dos deuses, onde Odin, sentado em seu trono, recepcionou-o com sua corte majestosa de guerreiros mortos.
  • Hiordi foi levada por um grupo de vikings liderados por Elf, filho do rei da Dinamarca, que passava pelo local. Sem que soubesse, Elf levava consigo também Sigurd, o herói que seria ainda maior que o próprio pai.

  • Sigurd e o anel do dragão
  • Sigurd era filho do guerreiro Sigmund e de sua esposa Hiordi. Sigmund morrera, já velho, em pleno campo de batalha, depois que Odin quebrara sua espada momentos antes do combate.
  • Tão logo Sigmund expirara, sua esposa fora levada embora por um viking de nome Elf, que era filho do rei da Dinamarca. Hiordi, grata pela generosa acolhida, acabou por se casar com Elf e, ali mesmo, em terra estrangeira, deu à luz a seu filho, que se chamou Sigurd. O pequeno garoto, entretanto, foi entregue aos cuidados de Regnir, um anão feiticeiro, irmão de Fafnir, cuja ambição o transformara em um repelente dragão.
  • Sob a orientação deste ser sábio - e, ao mesmo tempo, de uma moralidade dúbia - Sigurd foi criado, recebendo muitos dos privilégios que mereceria um filho do próprio rei. Ainda assim, seu preceptor não cansou nunca de lhe incutir o sentimento da revolta.
  • - Oh, Sigurd... Por que se contenta em ser um personagem secundário nesta corte medíocre, quando poderia ser o primeiro entre todos? - dizia-lhe Regnir todos os dias, enquanto lhe ia ministrando os muitos segredos que conhecia. - E a sua herança, a qual faz jus por ser filho de uma rainha, onde está? Alguém já lhe falou do assunto? Você já é um homem feito, e, no entanto, ainda não tem meios de exercer a sua liberdade. Sigurd, creia-me: um homem sem ouro, não vale nada em lugar algum!
  • Furioso com a nula receptividade de seu discurso, Regnir disse-lhe com uma nota de escárnio na voz:
  • - Sigurd, como pode aceitar o fato de ser o único homem da corte a não ter seu próprio cavalo?
  • O jovem, entretanto, acostumado a correr com os cavalos que escolhia livremente na coudelaria do próprio rei, jamais tinha pensado no assunto.
  • - Um cavalo só para mim...? - disse ele, com o ar surpreso.
  • - Claro, seu tonto! - respondeu Regnir, sapateando no pó. - Você tem direito a ter sua própria montaria!
  • Sigurd resolveu, então, procurar o rei e fazer seu pedido.
  • Ao contrário do que se poderia esperar, foi atendido pelo rei, que o autorizou a escolher um de seus melhores cavalos. Quando chegou à coudelaria, porém, encontrou um velho caolho envolto num manto, que parecia ser o cavalariço real.
  • - Jovem Sigurd, vem, finalmente, escolher sua própria montaria? - disse o velho, como se já estivesse informado há muito do fato.
  • - Sim, mas como sabe disto? - disse Sigurd, intrigado.
  • - A melhor maneira de escolher um cavalo, é montando-o. Pode parecer óbvio, mas poucos tem a lucidez para percebê-lo!
  • Sigurd deu ao velho um sorriso de assentimento.
  • - Muito bem, vamos montá-los, então, um a um!
  • - Não, não aqui!... - disse o velho, abanando a mão. - Leve-os até o rio e entre com eles no vau da correnteza; aquele que segurar melhor as patas dentro da água, será o escolhido.
  • Sigurd fez o que o velho sugerira e, depois de estar dentro do rio o dia inteiro, chegou, finalmente, a uma conclusão:
  • - É este! - disse ele, acariciando as crinas de um belo e lustroso cavalo negro.
  • - Greyfell! - exclamou o velho caolho, satisfeito. - Tal é o nome deste belo cavalo. - Depois, voltando-se para o jovem, acrescentou: - Sabe de quem descende?
  • - Não faço a menor idéia - respondeu o jovem Sigurd.
  • - Ele é filho de Sleipnir, o maior de todos os cavalos! - disse o velho, com orgulho. E ele podia sentir-se, de fato, orgulhoso, pois era o próprio Odin, o dono do célebre cavalo de oito patas. Porém, o velho deus não revelou a Sigurd a sua identidade, desaparecendo logo em seguida.
  • De posse de seu novo cavalo, Sigurd aprendeu as artes da cavalaria, que o anão Regnir lhe ensinou com todo o empenho. Mas, na cabeça deste ainda estava fixa a idéia de fazer com que o herói se tornasse tão ambicioso quanto ele próprio.
  • Pois, a verdade é que havia uma riqueza que o anão ambicionava mais que tudo neste mundo e que estava guardada por seu irmão Fafnir, o qual se convertera em um temível dragão para melhor protegê-la.
  • "Está chegando a hora, astuto Regnir, de você pôr as suas mãos naquele belíssimo tesouro", dizia ele todos os dias para si mesmo. "E também naquela encantadora preciosidade!" (O anão referia-se ao anel que fora forjado pelo também anão e mago Andvari, e que acabara, depois de muitas peripécias, por cair em poder de Fafnir.)
  • Mas, agora, Regnir estava prestes a se apoderar das riquezas, pois havia treinado um guerreiro especialmente para isto: Sigurd, o nobre filho de Sigmund.
  • O jovem mataria o dragão, segundo os planos do anão e, então, ele próprio mataria o herói, apoderando-se afinal do seu precioso anel.
  • Regnir esperou o dia seguinte para ir conversar com Sigurd sobre o assunto. Ele combinou um encontro na forja, onde o rei dinamarquês fabricava as espadas suas e as de seu exército. Tão logo avistou o herói, que recém voltara com seu cavalo Greyfell de uma alucinante cavalgada pelas florestas, chamou-o até si.
  • - Rápido, Sigurd, precisamos ter uma conversa muito séria.
  • - Que ar grave é este, mestre anão? - disse o jovem, que ofegava ainda da excitante cavalgada.
  • - O mesmo que verei em seu rosto, ao ouvir uma espantosa revelação.
  • Regnir contou, então, a Sigurd toda a história a respeito do anel de Andvari até o momento em que ele fora parar nas mãos de seu irmão, Fafnir.
  • - Um dragão? - exclamou Sigurd, excitadíssimo. - Um dragão de verdade?
  • - Sim, um terrível e sanguinário dragão. Caberá a você a honra de abatê-lo - disse Regnir, com a mais sedutora das vozes.
  • A cabeça de Sigurd verdadeiramente girava: "Combater contra um dra-gflo!", pensou ele. De repente, porém, um ricto de raiva enrijeceu seus lábios.
  • - Mas como o enfrentarei, anão maldito? - disse o jovem, tornando-se rude. - Com estas espadinhas de brinquedo que você forja todos os dias?
  • Regnir ocultou um sorriso de satisfação. "Começa a cair na cilada!", pensou.
  • - Vou tentar forjar a melhor espada que puder - disse ele, tomando do martelo. - Enquanto isto, vá testando estas outras que fabriquei durante a noite.
  • Sigurd voltou os olhos para uma mesa, onde estavam amontoadas várias espadas recém forjadas. Um sopro de desdém partiu dos lábios do jovem.
  • - Dou o meu pescoço a qualquer delas se resistirem a um único golpe! -disse ele, tomando da primeira e brandindo-a no ar com pouco entusiasmo.
  • - Vá testando-as, vá testando-as...! - disse o anão, enquanto malhava a nova, sem qualquer convicção, pois ele sabia que aquela ainda não seria a arma ideal.
  • Uma a uma as espadas foram sendo quebradas pelos golpes poderosos que Sigurd desferia contra a bigorna.
  • - Veja só, que bela porcaria! - dizia o jovem, a cada nova frustração. Finalmente, depois que o jovem havia espatifado todas as espadas, Regnir estendeu-lhe a nova, recém forjada.
  • - Vamos, tente esta! - disse o anão, fingindo uma confiança que não sentia.
  • Sigurd tomou a espada em suas mãos e, após tomar-lhe o peso, vibrou-a com toda a força sobre a bigorna. Uma chuva de cacos de metal esvoaçou por toda a forja, enquanto a bigorna permanecia intacta.
  • Sigurd, furioso, agarrou o anão pelo colete e o suspendeu até o seu rosto.
  • - Muito bem, tratante, era só isto que tinha para me mostrar? - Suas faces estavam congestas e uma decepção profunda lançava uma sombra terrível em seu olhar. - É com estas porcarias que pretende me enviar para enfrentar Fafnir? - disse ele, cujos lábios espumavam. - Será que deseja, por algum motivo que ignoro, a minha própria morte?
  • Desta vez, Regnir assustou-se com a reação do jovem aprendiz.
  • - Calma, jovem, ponha-me no chão! - disse ele, pedalando suas minúsculas pernas no ar.
  • - Antes, você me dirá o que pretende com esta história de dragão! - disse Sigurd, dando mais uma sacudida no pobre anão.
  • - Há uma espada... uma espada mais poderosa... do que qualquer outra!
  • Ao escutar isto, Sigurd largou o anão, que foi se estatelar no chão numa posição pouco honrosa. Recompondo-se, imediatamente, ele declarou:
  • - Seu pai, meu irascível jovem, possuía uma espada forjada pelo próprio Odin! E, então, que tal lhe parece?
  • Sigurd ficou mudo de espanto. Seria mais uma mentira do pérfido anão?
  • - Ela se quebrou no dia da morte de seu pai - disse o anão, revelando o segredo há tanto tempo escondido. - O próprio Odin a reduziu em pedaços com sua lança, Gungnir, num duelo que manteve com Sigmund.
  • - Quebrada?! - exclamou o jovem, incrédulo. - Mas, então, para que me servirá, anão maldito?
  • - Ora, e eu não sou um forjador? - respondeu Regin, assumindo uma postura altiva. - Sua mãe tem guardados ainda os restos da velha Notung; basta que peça a ela os fragmentos e prometo que a forjarei outra vez, de tal modo que terá a mesma resistência da antiga!
  • Sigurd, enlouquecido pela maravilhosa perspectiva, saiu correndo da forja e foi até o palácio onde sua mãe Hiordi estava. Depois de lhe implorar que lhe cedesse os pedaços da antiga relíquia, retornou às pressas para a presença do anão.
  • - Pronto, aqui está! - disse ele, desenrolando os fragmentos diante dos olhos fascinados de Regnir. - Faça-me, agora, uma nova Notung ou partirei seu pescoço com minhas próprias mãos!
  • O anão não esperou duas vezes e, saltando para a forja, começou a derreter os pedaços da espada, pronto a formar com eles uma nova e poderosa liga.
  • Sigurd acompanhava os movimentos do anão e ficou de tal modo impaciente que se agarrou ao grande fole e se pôs a manejá-lo com grande empenho.
  • "Uma criança!", pensava o anão, deliciado.
  • Regnir mergulhou o gume da espada, que estava de um vermelho quase incandescido, dentro da tina de água; um chiado feroz levantou-se dela, como se uma serpente em brasa tivesse sido lançada dentro do tonel. Logo em seguida, Regnir pôs-se a martelar o aço sobre a bigorna com golpes precisos e viris.
  • Mais alguns instantes e a velha Notung estava outra vez reconstituída.
  • Regnir levou-a, então, com amoroso cuidado até a roda de polir, onde lhe deu o acabamento final, dotando-a de um brilho verdadeiramente ofuscante.
  • - Eis Notung, a espada de Sigmund! - disse Regnir, erguendo-a e a ofertando a Sigurd. - Agora, ela é toda sua!
  • Os olhos do jovem brilhavam, quando suas duas mãos cerraram-se em torno do cabo prateado e repleto de lavores. Dando as costas a Regnir, Sigurd dirigiu-se até a bigorna e vibrou um golpe com toda a sua força.
  • Um estrondo terrível abalou a forja inteira, lançando para o chão o anão c os instrumentos todos. A bigorna jazia partida ao meio, com um pedaço caído para cada lado. Notung, a espada maravilhosa, entretanto, jazia inteira e intocada. Nem sequer uma ranhura ficara em seu gume afiadíssimo.
  • - E então?... - disse, timidamente, o anão. - Está pronto para a demanda do dragão?
  • ***
  • Na madrugada do dia seguinte, Sigurd partiu com o anão em direção à caverna onde morava Fafnir, o terrível dragão. O jovem filho de Sigmund levava consigo a poderosa espada numa fina bainha lavrada a ouro. Já o anão trazia uma velha pá enferrujada presa ao ombro por uma correia gasta e esfiapada.
  • - Vai enterrar o dragão depois que o tiver liquidado com uma pazada? - disse Sigurd, dando uma gostosa gargalhada.
  • O anão preferiu ignorar o gracejo, dizendo simplesmente:
  • - Melhor que o aguardemos no rio, onde ele costuma ir, logo cedo, para beber água.
  • Regnir, ao contrário de Sigurd, falava baixinho, com medo de que as grandes orelhas de Fafnir pudessem captar o som de suas vozes. Sigurd seguiu o conselho do anão, sentindo que seu riso fora mais de puro nervosismo, uma vez que seu coração batia furiosamente dentro do peito.
  • - Agora, é preciso que entenda que nem só a força poderá lhe ajudar - disse Regnir ao seu protegido -, senão toda a astúcia que também puder empregar.
  • Estiveram um longo tempo a observar a margem do rio, enquanto uma luz levemente acinzentada iam descorando o grande teto enegrecido do céu. As estrelas também foram adquirindo um brilho diferente, refulgindo ainda mais, como pedacinhos de carvão, que, estando prestes a apagar, lançam ainda um último brilho de surpreendente intensidade. De repente, porém, escutaram, vindo de dentro da mata espessa, um ruído de algo que se arrasta com decisão.
  • - Regnir, acorde! - exclamou Sigurd, sacudindo o ombrinho do anão.
  • Regnir acordou num pulo e ficou atento aos ruídos produzidos pelo animal. Algumas árvores sacudiram, derrubando uma chuva de folhas, que esvoaçaram pelo ar junto com uma coleção de passarinhos de várias espécies.
  • Fafnir, o dragão que protegia o anel e o tesouro de Andvari, aproximou do leito do rio a sua imensa cabeçorra azulada, que despendia, ao mesmo tempo,reflexos de suas escamas avermelhadas. Sigurd levou, instintivamente, a mão à espada, mas foi detido com rapidez pelo anão, que exclamou num sussurro irado:
  • - Ainda não! Ainda não!
  • Sigurd devolveu o olhar furioso para o anão, mas este não se intimidou.
  • - Chegou a hora da astúcia, meu jovem! - disse Regnir. - Vamos, arrastemo-nos, fazendo a volta até o rastro do dragão.
  • E, assim fizeram, coleando-se pela relva como duas serpentes, com as faces voltadas para a o chão.
  • - Agora, vamos esperá-lo - disse Regnir.
  • - Como? Vamos esperá-lo aqui, em pé?
  • - Em pé, não; enterrados.
  • - O quê...?
  • Regnir não se deu ao trabalho de explicar. Simplesmente, ordenou a Sigurd que cavasse uma grande fossa com a pequena pá que trouxera consigo.
  • Sigurd, sem querer discutir, tomou a pá das mãozinhas do anão e começou a cavar com decisão.
  • - Sem ruído, rapaz, sem ruído! - dizia o anão, modulando ao mínimo a sua voz fina e estridente.
  • Depois que Sigurd havia cavado um grande buraco, suficiente para conter a si próprio e ao anão, viu a pá ser retirada, abruptamente, de suas mãos.
  • - Por que cavar outra? - disse ele, ao ver que o anão cavava furiosamente.
  • Mas, o anão era realmente muito astucioso e, por isso, resolveu cavar uma pequena fossazinha só para si, pois sabia que ali não haveria encrenca.
  • - E agora? - disse Sigurd. - Vamos deitar aqui e esperar a volta do dragão?
  • - Ora, rapazinho! - exclamou Regnir, perdendo a paciência com a falta de perspicácia do afilhado. - Você ainda não entendeu o meu plano?
  • Ao ver que Sigurd, de fato, nada entendera, completou:
  • - Dragões são invulneráveis em sua carapaça e, por isto, o melhor que você fará é esconder-se embaixo dele, pois, só assim, poderá atingir o seu ventre, cuja a carne é infinitamente mais vulnerável. Entendeu agora?
  • - Entendi que você não passa de um grande covarde, e nem é tão inteligente quanto imagina ser - disse Sigurd, triunfante. - Se minha espada é capaz de partir ao meio uma bigorna, por que não poderia fender a pele de um dragão qualquer?
  • O anão encolheu-se para dentro do seu buraco e resmungou algo inaudível acerca da "prudência", antes de cobrir a abertura com grandes folhas arrancadas das árvores.
  • "Atrevido!", rosnou no interior da sua cova. "Verá, em seguida, a falta que faz uma bela prudenciazinha!"
  • Sigurd fez o mesmo e ambos ficaram a esperar o regresso do dragão. Um longo tempo passou até que a terra começou a tremer acima de suas cabeças.
  • "É ele!", pensou Sigurd, empunhando com gosto a sua espada. "Que venha de uma vez!"
  • Já o anão limitou-se a se encolher ainda mais no buraco como uma toupeira e, sem dúvida, teria entrado terra adentro se tivesse as garras poderosas daquele animal.
  • O primeiro a perceber a chegada do dragão foi, justamente, ele. A luz, que até momentos antes iluminava sua cova, bruscamente, desapareceu; uma treva espessa e malcheirosa desceu sobre si durante um longo tempo.
  • Quando, porém, tudo estava prestes a se acabar, o pobre anão sentiu que algo mole e incrivelmente quente caíra sobre si, queimando-lhe o lombo. Então, mandou às favas a prudência e começou a berrar como um bebê:
  • - Socorro, Sigurd...! Socorro todos os deuses...!
  • Não podia ser outra coisa, pensou ele, atarantado: o dragão havia descoberto o seu esconderijo e agora lhe arremessava um jato de seu bafo incandescido!
  • Mas descobriu que não era nada disto quando a luz retornou e ele pôde ver a cauda do dragão deslizando acima, num movimento pendular, tornando-se cada vez mais fininha até terminar num pequeno triângulo azulado.
  • Só, aí, percebeu que estava mergulhado num mar de excremento.
  • Enquanto isto, Sigurd, mais adiante, não estava em melhor situação: com o movimento que o dragão fizera ao se arrastar, a cova, onde o herói estava, aluíra alguns metros e, agora, ele estava no fundo, sem possibilidade alguma de atingir o monstro com sua espada. Mas, foi somente quando a escuridão desceu completamente sobre si que compreendeu que o "plano perfeito" do anão tinha dois furos colossais: como poderia saber, em primeiro lugar, com aquela escuridão completa, o momento exato em que estaria passando sobre a sua cabeça a parte do dragão que abrigava o seu coração? E o pior de tudo: se o animal morresse em cima do buraco, como faria para sair daquela sepultura hedionda?
  • "Irra! Maldito imbecil!", pensou Sigurd, enquanto as trevas o envolviam.
  • Mas agora era tarde para recuar e ele sabia que, se esperasse mais um pouco, seria tarde demais. Então, iluminado por uma idéia repentina, fincou as duas pernas nas paredes estreitas de sua cova e foi galgando-as como uma aranha até quase encostar a cabeça no ser asqueroso, que deslizava acima de si. Descobriu, então, que seus ouvidos podiam captar perfeitamente os batimentos cardíacos do dragão.
  • Um ruído semelhante àquele produzido por um batedor de tambor, que marca o ritmo nas navegações vikings, soava nitidamente acima de sua cabeça: Tum-tum!... Tum-tum!... Tum-tum!..., tornando-se cada vez mais intenso.
  • Sigurd fixou bem a atenção e suas pernas já estavam no último limite da resistência quando ele escutou o martelar cavo assumir o seu tom mais ensurdecedor: TUM-TUM...! TUM-TUM!... TUM-TUM...!
  • - É agora! - gritou o jovem, agarrando com as duas as mãos o cabo da espada e permanecendo preso ao ar apenas por suas maltratadas pernas. Num impulso que lhe arrancou do peito um grito selvagem, ele arremessou, finalmente, para cima, com todas as suas forças, a ponta da sua espada.
  • Nem bem a lâmina havia sido enterrada no ventre do dragão, Sigurd caiu ao solo, exaurido. Ao mesmo tempo, um urro colossal partido do peito do dragão atroou toda a sua minúscula caverna. O jovem cobriu os ouvidos com as duas mãos, mas, mesmo assim, quase desmaiou sob o impacto do urro selvagem e, certamente, teria sido destroçado caso o animal tivesse enfiado sua pata imensa dentro do buraco para esmagá-lo.
  • Mas, felizmente, sua pontaria fora certeira: o monstro ergueu-se sobre as patas traseiras, com as duas patas azuis dianteiras a tatear freneticamente o ar c depois caiu para trás (para sorte dos dois caçadores, bem longe de seus improvisados refúgios), provocando um tal abalo ao trombar contra o solo que o anão foi catapultado de dentro da cova para o ar — livrando-se assim, ao menos, daquele mar de excremento que o envolvia -, e indo se pendurar nos galhos de um imenso carvalho. O dragão, por sua vez, tão logo caíra ao chão deitara pela boca um dilúvio de sangue escarlate, que mais parecia a lava de um vulcão, a escapar por uma cratera cheia de dentes.
  • Regnir tratou logo de descer da árvore e com a espada de Sigurd arrancou de mesmo o coração do dragão.
  • - Tome! - disse ele, estendendo a Sigurd o grande músculo, ainda palpitante. - Arme uma fogueira e vamos comê-lo; estou louco de fome.
  • O coração de Fafnir foi assado até ficar tostado. Então, Sigurd mergulhou nele o seu dedo para ver se o interior estava também cozido.
  • Quando levou-o à boca, entretanto, sentiu algo estranho em sua cabeça, pois no mesmo instante começou a entender o que os pássaros diziam uns aos outros.
  • - Pobre rapaz! - dizia um pequeno pica-pau a um tordo, ambos empoleirados em um galho acima da cabeça do herói. - Mal sabe que está prestes a ser alvo de uma odiosa cilada!
  • Sigurd, ainda incrédulo, voltou sua cabeça para os dois pássaros.
  • - O pérfido anão está com a espada de Sigurd - disse o tordo, abrindo e fechando o afiado bico com rapidez. - Usará a própria arma do herói para matá-lo!
  • Este parecia ser o assunto dominante das aves que cruzavam os ares por cima da cabeça do jovem, mais até do que o próprio assassinato do dragão.
  • Sigurd, alarmado, virou-se para trás assim que percebeu o retorno do anão, que fora até o rio para se banhar e tirar do corpo a terrível catinga do dragão.
  • - Sigurd não poderá, então, tomar para si as riquezas de Fafnir, nem despertar a bela Brunhilde, que jaz adormecida na montanha de Hind Fell! - lamentou-se o pica-pau.
  • Então, compreendendo todo o plano do pérfido Regnir, Sigurd aproximou-se do anão e lhe pediu a espada, sob o pretexto de cortar um pedaço do coração. O anão, a contragosto, cedeu, pensando interiormente: "Irra! Que faça antes, então, a sua última refeição!"
  • Mas assim que Sigurd esteve de posse da espada leu nos olhos do anão toda a sua intenção, e isto bastou para que vibrasse um único e certeiro golpe no pescoço do infeliz. A cabeça do anão voou de balão e foi cair na relva. Um brilho de estupor e incredulidade iluminou os seus últimos instantes de lucidez.
  • - Aí está, perverso, o preço da traição! - disse Sigurd, limpando na relva o aço manchado de sangue.
  • ***
  • Depois de haver matado Regnir, Sigurd resolveu seguir o rastro do dragão morto para descobrir onde ficava o seu esconderijo. Não foi difícil seguir suas pegadas imensas e, num instante, o jovem herói estava diante da caverna.
  • Ao entrar lá não foi preciso iluminação alguma para descobrir onde estava o tesouro, pois as jóias e o ouro acumulado faiscavam tanto que era só se aproximar e pegá-los aos punhados. Mas, de todas as preciosidades a que mais brilhava, sem dúvida alguma, era o anel de Andvari. Sigurd tomou-o e, após colocar a preciosidade em seu dedo, resolveu ir até sua casa e buscar o seu cavalo Greyfell, que ficaria encarregado de levar o tesouro numa grande arca.
  • E assim fez. No mesmo dia ele estava rumando com seu tesouro para o castelo de Hindarfiall, ao encontro da misteriosa Brunhilde, que lá jazia adormecida.
  • Somente quando o crepúsculo já havia descido é que ele chegou à montanha, sendo surpreendido por uma muralha de chamas que a envolvia. Sem temer nada, Sigurd apertou os joelhos nos flancos do cavalo e disse ao animal, dando um sonoro grito:
  • - Adiante, Greyfell, à fama e à glória!
  • Com uma velocidade espantosa o cavalo arremessou-se às labaredas e o fez com tanta decisão que antes que o fogo pudesse causar qualquer prejuízo a ambos, estavam os dois já do outro lado, sãos e salvos.
  • - Bravos, fiel companheiro! - disse Sigurd, acariciando as crinas do cavalo.
  • O jovem tinha agora à sua frente um palácio majestoso, mas que parecia inteiramente abandonado. Empunhando a sua Notung afiada, ele avançou e adentrou o grande salão deserto, que não tinha qualquer outra decoração em suas elevadas e majestosas paredes, senão verdadeiras cortinas de uma hera espessa, cujos galhos subiam como serpentes até cobrir o teto de um tapete de ramas e folhas entrelaçadas. Seu olhar, contudo, logo foi atraído para o centro do salão, onde num grande estrado estava deitada uma jovem, vestida numa vistosa e brilhante armadura dourada.
  • Sigurd viu a si mesmo avançando, através de seu reflexo na armadura espelhada, até chegar ao magnífico estrado. Ali estava a bela Brunhilde enfeitiçada.
  • Ele tentou avistar o rosto da jovem, mas este estava quase que completamente oculto pelo capacete. Retirando-o com cuidado, ele descobriu que tinha diante de si uma linda mulher - a mais bela que seus olhos já haviam visto...!
  • Então, sem pensar em mais nada, cortou a parte frontal da armadura com sua espada, como quem corta uma finíssima cota de seda dourada, e libertou o peito jovem da opressão daquela camisa de aço.
  • Neste momento, os olhos de Brunhilde abriram-se, lentamente, como quem dcspi-rla do um sono profundo.
  • - Quem é você? - disseram seus lábios, que, instantaneamente, começaram a se tornar rubros outra vez.
  • - Aquele que a despertou novamente para a vida - disse o jovem, fascinado com tanta beleza.
  • Aos poucos, a jovem foi recuperando a memória e contou a ele a sua triste história: ela era uma valquíria - filha do próprio Odin - e fora colocada ali por ter desobedecido a uma ordem do pai.
  • - Somente um herói que desconhecesse o medo poderia ter me libertado! - exclamou ela, já apaixonada pelo seu jovem libertador.
  • E, assim, ambos tiveram uma longa noite de amor no castelo abandonado, protegidos pela imensa cortina de fogo, que manteve afastados todos os olhos do mundo. Começava o romance que acabaria por unir de maneira trágica os destinos dos dois jovens amantes.

  • Sigurd e Brunhilde
  • Sigurd era um jovem herói nórdico, que abatera o dragão Fafnir, guarda de um valioso tesouro e depois rumara para uma misteriosa montanha. Ali, libertara a valquíria Brunhilde (filha de Odin, o mais poderoso dos deuses) de um sono amaldiçoado, fruto de um castigo imposto a ela por desobediência a seu pai. Depois disto, Sigurd partira, mas com a promessa de retornar em breve para os seus braços.
  • O herói seguiu assim sua marcha, cavalgando por vários dias até que chegou ao castelo do rei Giuki; um nobre poderoso e que tinha várias filhas solteiras. Grimhilde, esposa de Giuki e mãe de todas estas infelizes moças, ao sabei' da chegada daquele jovem e belo cavaleiro, que era filho de uma rainha, retomou o plano de casar as filhas. - Este não escapará! - disse ela, esfregando as mãos.
  • - Ora, Grimhilde, deixe de bobagens! - disse o velho rei, enfastiado. - Sabe lá se ele já não é um homem casado, ou ao menos comprometido?
  • - Asneiras! - disse a rainha, correndo, imediatamente, para os seus aposentos, onde pegou um pequeno frasco, que continha a poção mágica do esquecimento. - O loirinho valente cairá como uma luva para Gudrun!
  • Gudrun era uma das filhas encalhadas do velho casal. Não era nada feia e, de fato, prometia fazer um belo par com o jovem forasteiro. Os olhos da mãe de Gudrun brilharam ainda mais, quando uma serva veio lhe dizer que o forasteiro trazia consigo um grande baú. - Dê um jeito de descobrir o que há dentro! -disse ela à serva, uma criatura baixinha e roliça, que amava uma bisbilhotice mais que tudo neste mundo.
  • A serva cumpriu a tarefa com sua habitual eficiência.
  • - Ouro e jóias, minha rainha! - disse ela, com as bochechas escarlates.
  • - Tem certeza, sua idiotinha? - perguntou Grimhilde, mordiscando a unha.
  • - Ouro e jóias! - repetiu a serva.
  • - Ótimo! Será devidamente recompensada!
  • - Muito obrigada, generosa rainha! - disse a serva, que, no entanto, já havia se recompensado por conta própria ao tirar uma ou duas coisinhas lindas do baú, pois sabia de longa data, que promessas de rainha valiam ainda menos do que as suas.
  • Houve, então, uma grande recepção ofertada a Sigurd, na qual a rainha deu um jeito de fazer chegar aos lábios do jovem uma taça de sua poção maldita.
  • - Esta é minha filha Gudrun - disse a rainha, apresentando a filha a Sigurd, que parecia um pouco tonto.
  • - Ah... muito prazer... - disse Sigurd, enxergando a moça por detrás de uma espessa névoa. Esta névoa mental foi, pouco a pouco, apagando a sua amada Brunhilde da lembrança, de modo que, em poucos instantes, já nada restava mais da bela valquíria em sua mente - tampouco em seu coração.
  • - Que achou de minha filha? - disse a rainha, de maneira insidiosa a um Sigurd ainda atordoado.
  • - Gudrun... a sua filha? - disse Sigurd, observando a jovem.
  • - Sim, quer se casar com ela? - fulminou a rainha, à queima-roupa.
  • - Grimhilde! - disse o rei, de modo ríspido, dando-lhe um puxão na roupa.
  • - Quieto, idiota! - rosnou ela ao ouvido do rei. - Deixe-me salvar a honra de pelo menos uma de nossas filhas!
  • Sigurd tergiversou da primeira vez, mas foi assediado com tanta insistência pela rainha que acabou por se render aos encantos de Gudrun, a qual, como já dissemos, não era nada desprezível. - Está bem, persistente rainha - disse Sigurd, recobrando o seu bom humor. - Casarei com sua encantadora filha!
  • Grimhilde chorou de emoção o resto da noite. Dali a um mês, Sigurd casou-se com Gudrun em uma grande festa, na qual foi apresentado a Gunnar e Hogni, os irmãos de sua esposa, que haviam chegado às pressas para o casamento.
  • Gunnar e Hogni: dois cunhados que não fugiriam à regra.
  • ***
  • Gunnar era um jovem nobre, fútil e enfastiado, que, a exemplo de sua irmã, via no casamento a panacéia para todos os seus males. Ao ver que a irmã conseguira arrumar um homem valente e decidido, resolveu tirar vantagem desta brilhante aquisição. - Sigurd, agora que somos irmãos, creio que posso tomar a liberdade de lhe fazer um pedido - disse Gunnar, assumindo, ativamente, o seu papel de cunhado.
  • - Claro, meu irmão, faça-o de uma vez! - disse Sigurd, num açodamento que revelava bem a sua inexperiência.
  • - Há uma bela mulher, que está enfeitiçada há muitos anos em Hindarfiall. - Esta palavra produziu um ligeiro reflexo na mente de Sigurd, apagado, rapidamente, pela torrente das palavras do cunhado. - Seu nome é Brunhilde e ela é filha adotiva do rei Atli.
  • - E o que o impede de ir até ela?
  • - Acontece que o castelo está cercado por um anel de chamas.
  • - Brunhilde... um anel de chamas...
  • - O pai verdadeiro dela é Odin e a encerrou no castelo sob esta cortina de fogo, num sono profundo, de forma que somente um herói destemido poderá atravessar as chamas e despertá-la outra vez para a vida. - Gunnar sabia, perfeitamente, que Sigurd era o homem perfeito para realizar esta proeza, já que ele era um covarde absoluto. - Sigurd, você enfrentou e matou um dragão sem nem mesmo piscar os olhos! - disse Gunnar, implorativo. - Faça isto por mim!...
  • - Mas, Gunnar, você ao menos já tentou fazer isto e ser digno do amor dela? - disse Sigurd, ligeiramente incomodado com a covardia do cunhado.
  • - Sim, mas as chamas quase engoliram a mim e ao meu cavalo! - disse Gunnar, com um tom de voz um tanto inconvincente.
  • - Está bem - disse Sigurd, inclinando-se à generosidade. - Irei até o palácio e a despertarei para você. - Sigurd, tendo perdido a memória, esquecera-se do fato de que ele próprio já fizera isto.
  • - Mas, como fará para se parecer comigo? - disse Gunnar, que, pouco inteligente, havia se esquecido, até então, deste importantíssimo detalhe.
  • - Tenho comigo um pequeno objeto, que fará isto à perfeição - disse Sigurd, erguendo a mão e mostrando num dos dedos o anel do dragão. - Se eleja foi capaz de transformar um anão em um dragão, por que não me dará a sua aparência?
  • Gunnar sorriu de felicidade, pensando que Brunhilde seria sua dentro de muito pouco tempo. No mesmo dia, começou os preparativos para a viagem de Sigurd. - Não esqueça, porém, de guardar a castidade enquanto estiver com ela, pois quero que Brunhilde seja somente minha - disse Gunnar, num ligeiro assomo de ciúme.
  • - Nada tema: casei-me com sua irmã e jamais iria desonrá-la - disse Sigurd, com firmeza. - Além do mais, não se esqueça de que estarei com a sua aparência, e não a minha, o que facilitará as coisas - acrescentou com uma nota ligeira de ironia na voz. - Gunnar guardou na alma, com todo o cuidado, aquela pequenina perfídia. Era o pretexto que esperava para poder, mais adiante, exercer livremente a sua ingratidão.
  • ***
  • Sigurd chegou ao palácio de Hindarfiall naquela mesma noite e, após atravessar as chamas, apresentou-se a Brunhilde como aquele que teria direito legítimo a desposá-la. A valquíria, aterrada, tentou argumentar, dizendo que outro homem já a havia despertado anteriormente. Sigurd, entretanto, não deu ouvidos às suas queixas e exigiu que ela se deitasse com ele. Brunhilde, sem meios de defesa e temendo a infâmia de uma violação, acabou por ceder e admitir dividir o leito com aquele estranho (pois não pudera perceber que se tratava, na verdade, de seu amado Sigurd). - Vamos - disse o falso Gunnar, estendendo para Brunhilde a sua áspera mão. - Brunhilde, abaixando a cabeça, entrou em silêncio para seu quarto, seguida do estranho. Gunnar-Sigurd, entretanto, levava consigo a sua espada, Notung, e tão logo deitou-se ao lado de Brunhilde, colocou-a entre seus corpos, honrando, deste modo, a promessa que fizera ao irmão de sua esposa.
  • No dia seguinte, ambos retornaram ao castelo de Gunnar, onde a verdadeira pessoa assumiu a sua condição de marido de Brunhilde, enquanto Sigurd -já com seu aspecto real - retornava para os braços de Gudrun, a sua legítima esposa. Brunhilde, por sua vez, recebera das mãos de Gudrun uma taça, contendo a mesma poção maldita, que apagara da lembrança de Sigurd o passado.
  • - Esta é sua, querida - disse Gudrun, que havia sido bem orientada por sua pérfida mãe. - Façamos todos um brinde à minha nova irmã!
  • A partir deste instante, Brunhilde perdeu também a lembrança de Sigurd, que pôde reaparecer diante dela com sua face original.
  • E assim, durante alguns meses, viveram todos em paz e harmonia até que, um dia, surgiu uma disputa entre as duas mulheres por uma tola questão de vaidade.
  • - Meu marido Sigurd é maior do que o seu! - bradava Gudrun, quase histérica, no salão do trono.
  • - Hó-hó!, a idiotinha! - debochava Brunhilde. - Gunnar é infinitamente mais valoroso! Quem foi que atravessou as chamas para me libertar?
  • - E quem foi que matou um dragão, cara a cara? Foi o tolo do seu marido?
  • - Modere a língua, sua viborazinha! - exclamou Brunhilde, colérica. -Lembre-se de que Gunnar é seu irmão!
  • - Irmão idiota, por ter aceito casar-se com uma rameira!
  • Uma bofetada estalou na face de Gudrun, que rompeu num pranto aceso. - Valquíria maldita!... - exclamou ela, encurvando os dedos aduncos de unhas mais afiadas que as da sua gata branca. - Então, diante da agressão, esqueceu-se da prudência e desatou de uma vez o nó que prendia a sua língua: - Você não passa de uma enganada! - exclamou Gudrun, cuja língua desatada vibrava com a mesma desenvoltura de um chicote. - Foi meu marido, Sigurd, no lugar de Gunnar, quem atravessou as chamas para deflorá-la!
  • - Mentira! - gritou Brunhilde, possessa.
  • - Veja! - disse Gudrun, mostrando o anel que Sigurd lhe dera. - Não o reconhece?
  • Era o anel que Sigurd tomara ao dragão. Como fora parar nas mãos de Gunnar e depois de Gudrun?, pensou Brunhilde. E, então, tudo, subitamente, ficou claro: ela fora vítima de uma trama imunda.
  • - Foi Sigurd quem a seduziu, em nome de Gunnar! - disse a rival, explodindo, em seguida, numa gargalhada hedionda, que cresceu de intensidade ao ver a confusão estampada no rosto da rival abatida. Brunhilde recolheu-se ao silêncio e, a partir de então, começou a tramar uma terrível vingança contra Sigurd. Procurou, imediatamente, o marido e, depois de xingá-lo bastante, exigiu dele uma sangrenta reparação. - Quero que mate o marido de Gudrun! - disse ela, com a boca espumando.
  • - Matar Sigurd? O que está dizendo? - disse Gunnar, atônito.
  • - Você acha que poderei andar de cabeça erguida depois desta comediazinha de erros que armaram para cima de mim?
  • - Ora, Brunhilde querida... Foi apenas um meio de que me servi para poder conquistá-la...! - disse Gunnar, acariciando a esposa.
  • - Um meio para me humilhar, você quer dizer!
  • De repente, uma idéia perversa cruzou o cérebro de Brunhilde como uni relâmpago, e ela não hesitou em apanhá-la pelo rabo. - E você, seu ingênuo... acreditou mesmo que o cínico do Sigurd tenha dormido ao meu lado sem me tocar?
  • Gunnar permaneceu alguns instantes sem compreender.
  • - Acreditou, então, naquela historinha da espada metida entre nós?
  • Um riso escarninho partiu dos lábios de sua esposa, que era a resposta inequívoca à sua própria pergunta.
  • - Está mentindo! - esbravejou Gunnar, lembrando, porém, ao mesmo tempo, da ironia que o cunhado havia feito antes de partir. Isto foi o bastante para fazer cessar em seu peito aquela incômoda gratidão, que o perturbava desde o casamento. - Se foi assim mesmo... ele pagará com a vida!
  • - Sim, seu imbecil, três afrontas à nossa honra perpetrou este vilão: contra mim, contra você e também contra a sua irmãzinha...!
  • Gunnar foi imediatamente procurar seu irmão Hogni. Mas, este não queria saber de encrencas; além do mais, havia feito junto com Gunnar um pacto de sangue com Sigurd, que unira os três como novos irmãos, logo depois do casamento de Sigurd e Gudrun. - Guttorm, entretanto, não chegou a tempo do casamento, nem tampouco do pacto, está lembrado? - disse Hogni, referindo-se a um terceiro irmão, que andava desaparecido.
  • - Claro! - exclamou Gunnar, aliviado. - Guttorm fará o serviço!
  • No mesmo dia, um mensageiro foi procurar o tal Guttorm, que andava caçando numa distante floresta. Quando ele retornou, os dois irmãos se apoderaram dele avidamente: - Guttorm, precisamos que você limpe a honra de nossa família!
  • - Limpar o quê? - disse Guttorm, sem entender nada.
  • - A nossa honra, Guttorm! Somente você poderá fazê-lo!
  • - Mas como? Por quê? O que houve?
  • - Silêncio! - esbravejou Gunnar.
  • Os dois irmãos contaram, então, a Guttorm toda a história, da qual seu cérebro limitado não compreendeu nem a terça parte. Mas, como havia sangue na história, seus ouvidos de caçador permaneceram atentos. - E o que eu levo nisto? - quis saber ajuizadamente.
  • - O tesouro de Sigurd será todo seu! - disse Hogni.
  • Gunnar fuzilou-o com o olhar. Ele esperava convencer o irmão apenas com um belo discurso sobre a honra e a dignidade da família, mas Hogni estragara tudo.
  • - Negócio fechado! - disse o bruto e, agora, não havia mais como voltar atrás.
  • Duas noites depois, Guttorm foi, pé ante pé, até o quarto de Sigurd, que dormia ao lado de sua esposa. Após abrir uma pequena fresta na porta, meteu metade de seu corpo para dentro, mantendo com cautela a outra metade do lado de fora. Uma espada afiada pendia da mão do assassino. Então, quando olhou para o rosto de Sigurd, percebeu que este tinha os olhos abertos e que o mirava de um modo terrificante.
  • Guttorm esgueirou a outra metade de seu corpo para fora do quarto e fechou a porta rapidamente. Seu cunhado parecia uma assombração; ao menos, foi esta a nítida impressão que aqueles olhos arregalados lhe deram. Estava pronto para desistir, quando lhe veio à mente o tesouro prometido. Então, retornou do mesmo jeito que antes, abrindo nova fresta à porta. De novo, metade do seu corpo introduziu-se pela fenda e, de novo, o olhar pavoroso de sua vítima congelou-lhe os ossos sob a pele. "Parece já um habitante de Hei!", pensou Guttorm, terrificado.
  • Depois de muito tempo, Guttorm abriu a porta pela terceira vez. Desta vez, o mataria ou fugiria em definitivo. Guttorm entrou - desta feita, com todo o corpo - e foi até a cama, onde Sigurd, finalmente, dormia. "Provavelmente, das outras vezes, ele também estivesse dormindo, só que de olhos abertos", pensou, tentando se acalmar. "Muitos dormem desta maneira." Então, ergueu sua espada e desferiu um golpe mortal bem no peito do jovem. Sem retirar a espada da ferida, Guttorm saiu correndo do quarto e já quase alcançava a porta, quando sentiu que suas pernas fraquejaram completamente. "Que hora para me faltarem as pernas!", pensou num relâmpago, antes de tombar ao chão, já do lado de fora. Uma fraqueza total apoderou-se de si, quando tentou reerguer-se. "Mas, o que está acontecendo?", pensou, tentando desesperadamente colocar-se em pé outra vez. Foi, então, que compreendeu, num último lampejo de consciência, que já não tinha mais pernas!
  • Sim, pois tão logo Sigurd fora atingido pelo golpe mortal do agressor, erguera-se e vira o assassino prestes a escapar. Tomara, então, de sua espada e a arremessara com tanta força em sua direção que cortara Guttorm pela cintura, de tal modo que a metade inferior de seu corpo ficara dentro e a superior para fora do quarto.
  • E foi assim que tanto Sigurd quanto Guttorm pereceram um pelas mãos do outro. Gudrun, por sua vez, acordou com todo aquele movimento apenas para descobrir que seu marido já estava morto e que ela própria estava com as vestes iodas molhadas do seu sangue. Um grito de pavor atroou as paredes de pedra do castelo, fazendo com que todos acorressem, imediatamente, para o quarto do casal. Mas nada mais havia a ser feito: a vingança de Brunhilde estava concretizada.
  • Gudrun acusou a cunhada de ter tramado a morte de seu marido e esta não se deu ao trabalho de negar. Aos poucos, porém, Brunhilde foi recuperando a consciência dos verdadeiros laços que a ligavam a Sigurd - talvez por força da morte dele ou do choque dos acontecimentos. O fato é que um profundo remorso foi se apoderando da pobre valquíria, de tal sorte, que, no dia do funeral de Sigurd, ela aproximou-se da pira onde dali a instantes seria queimado o corpo de seu amado (pois, agora, ela tinha consciência plena do seu amor), e retirando do seio um afiado punhal, enterrou-o no peito, pedindo em suas últimas palavras para ser queimada ao lado de Sigurd. E assim foi feito: Sigurd e Brunhilde foram queimados na mesma pira, tendo, entre eles, a espada do herói, tal como na noite em que ele provara a todos a sua lealdade.